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“Esqueci-me como se chama”, de Daniil Harms com ilustrações de Gonçalo Viana

Estou com sono. Estou com muito sono mas não vou dormir. Abro de novo o portátil. Uma luzinha azul treme, indicando falta de bateria. Agarro num bloco e num lápis. Estou com sono mas não vou dormir. Vou escrever. Vou escrever sobre um homem.

 


É alto, muito magro, excessivamente magro. Assustadoramente magro. Está inclinado sobre uma mesa. A mesa está torta. Embrulhada num pano, uma fatia de pão escuro, duro. É de noite e está frio, um frio russo, mas a lareira está apagada, húmida. O homem escreve depressa, quase sem respirar. As folhas amarrotadas cobrem-se com a sua letra inclinada. Os cadernos são grosseiros, desiguais, as folhas desprendem-se e algumas caem no chão. No pequeno quarto desnudado, destaca-se um armário, gavetas meio abertas, atulhadas de folhas atadas com cordel. Folhas de papel também nas cadeiras esqueléticas, e sobre a cama desfeita, no canto. Do outro lado, ao pé das três janelas, uma cadeira de baloiço. O homem vira-se de repente para a porta, escutando os passos pesados, autoritários, apressados, subindo as escadas. O rosto, agora iluminado, está brilhante, pequenas gotas de suor nas têmporas arruivadas, os olhos claros inundados por uma vermelhidão líquida. No meio da testa, a marca profunda do franzir dos loucos entre as sobrancelhas salientes. Insolências sobrantes, ironias íntimas, provocações disfarçadas, esculpiram-lhe marcas de risos antigos nas faces encovadas. O homem levanta-se e, em movimentos rápidos, precisos, antecipatórios, baixa-se junto à cama e puxa uma mala esburacada, cujos fechos estalam sob a pressão dos dedos longos. O barulho dos passos é cada vez mais intenso. Uma voz de mulher que protesta, um grito, uma criança que chora. As gavetas do armário estão agora abertas, vazias. As folhas acumulam-se no fundo da mala, em rolos improvisados, em pilhas ansiosas. Numa corrida, o homem agarra no último caderno, segurando-o junto ao peito. A tinta mancha-lhe o peitilho, os punhos, o colarinho. Pancadas na porta. Num gesto súbito, o homem arranca do peito esse último caderno, atirando-o para dentro da mala, que empurra, com o pé, para debaixo da cama. As costas do homem estão direitas agora, a pose é a de lorde inglês, olhar altivo, sardónico. Aguarda.
– Daniil Ivánovitch Iuvatchov? N.K.V.D. Considere-se preso por atividades literárias antissoviéticas.

Nascido em 1905, Daniil Harms, aquele que é hoje considerado um dos grandes escritores e dramaturgos da história da literatura russa, morreu de fome durante o rigoroso inverno de 1942, esquecido numa prisão russa para doentes mentais. A mala com os manuscritos foi milagrosamente recuperada de entre os destroços da casa bombardeada, durante o cerco nazi a Leninegrado, pela mulher e por um amigo. Parece uma história, mas não é.

“Estou interessado apenas no nonsense. Só naquilo que não tem qualquer sentido prático. Estou interessado na vida apenas na sua manifestação absurda”, afirmou Harms. É a confirmação reiterada de que a realidade é mais absurda do que a ficção. É a biografia a espelhar a escrita, a escrita a refletir a vida, em surreal palíndromo. Harms fia, tece, corta, recorta, baralha, aborta, transforma, condensa, comprime e implode. Os seus textos não precisam de explicações ou de contextualizações. Saltam habilmente sobre as armadilhas do esperável, do estandartizado, das estratégias composicionais e autorais, e espreguiçam-se, provocatórios e miniaturais, em auto-referencialidades obsessivas, paródicas, absurdas. Da teatralidade beckettiana dos cartoons e filmes mudos, ao universo “nonsensical” de Carroll e Lear, estes contos para crianças de Daniil Harms, sendo contos para crianças, são também dez brevíssimos manifestos meta-ficcionais pós-modernos (não será esse um dos grandes fascínios da literatura para crianças?).

 


Na deliciosa edição da Bruaá de “Esqueci-me como se chama – Histórias e poemas de Daniil Harms”, com ilustração de Gonçalo Viana, o absurdo debica, esgaravata e saracoteia-se por todo o lado, do título à capa, contracapa e guardas, passando pelo índice, textos e ilustrações e terminando no aéreo anúncio do FIM. O texto brinca com a imagem que brinca com o texto que brinca com o leitor que brincará com ambos. O grafismo cromático caleidoscópico retro, a surpresa da opção geométrica e arquitetónica dos elementos visuais, a própria inspiração nas figuras tradicionais das matrioskas russas animadas e na expressividade caricatural típica dos antigos “scraps” e cartoons de imprensa, pela sua inteligência e dosagem ideal, tornam as histórias de Daniil Harms ainda mais subversivas.

Convites à participação dos narratários-ouvintes surgem incrustados nos textos. A ilustração acompanha o desafio. Seremos nós capazes de corresponder?

 

 
livro “Esqueci-me como se chama”, de Daniil Harms com ilustrações de Gonçalo Viana
Bruaá, 2011
[a partir dos 5 anos]

 

Paula Pina

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“A crocodila mandona” e “O país das pessoas de pernas para o ar”, da Tcharan

 

Dois livros inauguram uma nova editora, a Tcharan, da ilustradora Marta Madureira e da escritora Adélia Carvalho. “A crocodila mandona”, primeiro trabalho da dupla neste contexto (depois de se terem cruzado no “Livro dos medos”, publicado pela Trampolim em 2009), mereceu uma Menção Especial no Prémio Nacional de Ilustração 2010, da Direção Geral do Livro e das Bibliotecas. Percebe-se por que razão. O texto em verso encaixa-se no âmbito das lengalengas e histórias acumulativas rimadas, típicas do universo popular de tradição oral, ou, se quisermos, pode ser uma espécie de jogo atualizado do “Bom barqueiro” (“Linda falua”, para outros), em que a teatralidade dos diálogos curtos e incisivos entre as diversas personagens que vão surgindo ecoam outras histórias, como “O coelhinho branco e a formiga rabiga”, por exemplo. Se este texto, enquanto reescrita da tradição, funciona como exercício de memorização ou jogo de expressão dramática, oferece-se, nas páginas finais, também como proposta didática, convidando à criação de novas personagens e novas rimas, nas modalidades escrita e desenho.

Quanto a “O país das pessoas de pernas para o ar”, é uma reedição de um texto de 1973, de um autor consagrado, Manuel António Pina. É delicioso reler este Manuel António Pina, que aqui, descarado, nos alimenta com colheradas cheias de doce humor, roçando o nonsense, brincando com as palavras, com as personificações, com as escolhas dos nomes das personagens, com o excesso de copulativas, com as repetições, com as frases, em sintáticos desarranjos, construindo “childlike styled narratives”.

 

“Uma vez a Sara tinha um passarinho. O passarinho chamava-se Fausto. Era branco e amarelo e chamava-se Fausto. O nome dele era Fausto.”

 

São quatro as histórias: “O país das pessoas de pernas para o ar”, a primeira, seguindo-se “A vida de um peixinho vermelho”. Depois, duas pequenas narrativas tendo o menino Jesus como protagonista: “O menino Jesus não quer ser Deus” e “O bolo do Menino Jesus”. Quem conhece as histórias que as crianças inventam e escrevem, não consegue evitar um sorriso. E, pensando no que se escrevia e se publicava para crianças no início dos anos 70, compreendem-se melhor as ousadias de Manuel António Pina:

 

“Um bolo estava na montra da pastelaria, todo coberto de açúcar. O menino Jesus ia a passar, levado pela mão por S. José e aquele bolo pensou:

– Queria que este menino me comesse. Ele é Deus, queria que ele me comesse com a boca dele. Ia para dentro dele, e depois ia para o estômago dele; e depois ele fazia a digestão, e eu ia para o sangue dele, ficava para sempre dentro do sangue dele. Transformava-me no sangue do menino Jesus e andava dum lado para o outro dentro do corpo do menino Jesus. Com um bocadinho de sorte, talvez até aparecesse na chaga do lado.

Aquele bolo pensou estas coisas, como seria bom o menino Jesus comê-lo, e ficou triste.”

 

Ousadias também as da ilustradora, que recorrendo a técnicas mistas nos surpreende com o seu sentido de equilíbrio gráfico entre texto e imagem, nos encanta com o cuidado nos detalhes, com a subtileza do seu humor e plena compreensão do texto.

Uma entrada “tcharan!” para a Tcharan.

 

livro “A crocodila mandona”, de Adélia Carvalho com ilustrações de Marta Madureira

Tcharan, 2010

[a partir dos 4 anos]

 

 

livro “O país das pessoas de pernas para o ar”, de Manuel António Pina com ilustrações de Marta Madureira

Tcharan, 2011

[a partir dos 5 anos]

 

 

Paula Pina

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