Category Archives: Televisão

É Natal, toquem os sinos

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Cria Cria apresenta: 7C, Cultura e Criatividade

 

Há quem se preocupe. Há quem faça. Há quem se preocupe e faça. Cria Cria aposta na literacia cultural. Da teoria à prática, em casa, Continue reading

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O Quarteto 1111 em 11 do 11 do 11

 

Abundaram as previsões, discussões, prognósticos, rituais, medos ou celebrações, a propósito e a despropósito desta data recheada de numerológicos simbolismos. Aqui, no Cria Cria, decidimos abrir uma Continue reading

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Recordando Charles-Émile Reynaud e Vasco Granja no Dia Mundial da Animação

 

Charles-Émile Reynaud (1844-1918), num acesso de raiva, deitou ao rio Sena as suas máquinas e filmes. Os filmes eram apenas películas perfuradas com imagens pintadas à mão, “desenhos em movimento” dançando em 50 metros de banda, perfazendo um total de 40 minutos de projeção por três bandas. As máquinas eram praxinoscópios. Quanto a Charles-Émile Reynaud, foi o fundador da moderna cinematografia, ao projetar no Museu Grévin, em Paris, e para pasmo das audiências, o seu Théâtre Optique, no dia 28 de outubro de 1892. A razão do acesso de fúria: o advento do cinematógrafo dos irmãos Lumière.

Curiosamente, do outro lado do Oceano Atlântico, no mesmo dia 28 de outubro de 1892, inaugurava-se aquele que é, hoje ainda, um símbolo imediatamente reconhecível, mesmo para qualquer distraído ou contrariado frequentador de salas de cinema: a estátua da liberdade, que inspiraria a imagem de marca da produtora e distribuidora Columbia Pictures.

Recordamos estas histórias no Cria Cria porque se celebra hoje o Dia Mundial da Animação, um evento simultâneo que envolve o intercâmbio entre instituições congéneres, a nível mundial, em mais de 50 países, e que em Portugal ganha expressão em múltiplas iniciativas, um pouco por todo o território, e numa programação vasta, centralizada pela Casa da Animação, Porto, na qual se destaca a produção nacional e o premiado Shaun Tan que, com Andrew Ruhemann, criou “The lost thing”:

 

 

Recordamos estas histórias no Cria Cria também porque nos lembramos muito bem do tempo em que não havia salas de cinema com filmes para crianças ou videotecas (haver bibliotecas com secção infantil era um luxo). Lembramo-nos ainda da televisão a preto e branco (e só para alguns), em que apenas um programa na RTP, anódina e asseticamente intitulado “Cinema de animação”, começou a divulgar, a partir de 1974 e durante 16 anos, milhares de obras do género. Os recursos eram escassos, mas havia variedade e ousadia. Por detrás do tão atacado “amadorismo” e do inglês arrevesado, havia a determinada paixão de um autodidata convicto – Vasco Granja -, com a chancela superior do balcão da Tabacaria Travassos, a garantia dos Armazéns do Chiado, os títulos académicos da Livraria Bertrand, a experiência formativa dos cineclubes e das prisões da PIDE. Foi com ele que pela primeira vez ouvimos falar de anime, devorámos Looney Tunes e Warner Bros., absorvemos animação experimental vinda de leste e oeste, descobrimos Peter Foldes e Norman McLaren. Havia convidados (pequenos e crescidos) e concursos. O que Vasco Granja fez com edição portuguesa da revista Tintin (1968) foi notável: escrevia, traduzia, respondia aos leitores. Continuamos a descobrir ainda hoje tudo o que vimos nessa altura. Continuamos a descobrir que tudo faz sentido. Gostaríamos que todas as crianças soubessem como se diz “Fim” em polaco. Nós sabíamos: “Koniec”.

 

Paula Pina

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Leonard Bernstein

 

Foi em Tanglewood que Leonard Bernstein (25 de agosto de 1918 – 14 de outubro de 1990) fez a sua formação e iniciou a carreira de maestro. E era a Tanglewood que voltava sempre, para ensinar, mesmo em período sabático, em detrimento de tournées agendadas e concertos esgotados nas salas mais importantes das grandes capitais do mundo. Também em Tanglewood terminou a sua carreira, em 1990.

 

 

Talvez estivesse encantado, como Nathaniel Hawthorne, autor de “Tanglewood tales” (1853), volume de contos cujo título mágico nomeia, hoje ainda, o centro educativo e cultural da Boston Symphony Orchestra. Veem-se as montanhas Berkshire, ao fundo, e o lago Stockbridge Bowl espreita por entre as moitas e extensos relvados. O espaço está serenamente salpicado de cadeiras de lona e guarda sóis. De vez em quando, um pequeno grupo abre uma cesta de piquenique. Sob a sombra, alguém se curva sobre uma partitura. Chegam-nos sons distantes de cordas. Os edifícios parecem hangares ou celeiros gigantes, acolhendo quem chega e abrindo-se para o exterior, inundados de luz durante o dia, iluminando os relvados à noite. As pessoas, de todas as idades, trazem as suas cadeiras e mantas, enquanto ecrãs gigantes projetam imagens da orquestra.

 

 

Bernstein fundou institutos, escolas e uma classe mundial de prática orquestral, no Schleswig Holstein Music Festival. Fundou o Pacific Music Festival, em Sapporo, Japão, importando o modelo de Tanglewood. Havia quem o encontrasse, fazendo o seu jogging alegremente, ou cruzando os caminhos serpenteando entre os relvados de Tanglewood no seu Mercedes beige descapotável, acenando aos estudantes. “Sou um rabino disfarçado”, dizia, espreitando por cima das meias lentes dos óculos. Estava sempre a pregar, imbuído de uma espécie de espírito missionário, que considerava mais importante do que tudo o resto. Usava uma camisola desportiva azul bebé, jeans, botas de cowboy, e um lenço vermelho espreitava-lhe do bolso. Os seus elogios eram abundantes: “Great, but I want it twice as great!”. A sua energia levava-o muitas vezes a um exagero nos gestos, com meneios e saltos, rapidamente tornados moda em passos de dança, como o famoso “Lenny’s jump”. Mas a sua exigência, rigor analítico, fervor e perspicácia crítica e psicológica eram ainda mais extraordinárias: “Regra número um para quem toca em grande orquestra: é tudo música de câmara!”. Leonard Bernstein começara a sua carreira de maestro em 1943, substituindo à última hora um Bruno Walter engripado. Tocava-se o “Dom Quixote”, de Richard Strauss. Mais tarde, quem olhasse com atenção, veria que Bernstein usava sempre os botões de punho do seu mentor, o maestro Serge Koussevitzky.

 

 

“In my end is my beginning”, escreveu Bernstein na carta que enviou aos amigos convidando-os para a performance de gala em benefício do Tanglewood Music Centre, coincidindo com o seu 70º aniversário. T. S. Eliot nos “The four quartets” escrevera, em “East Coker”: “In my beginning is my end”. Nas Harvard Lectures, enquanto Charles Eliot Norton Professor of Poetry, Leonard Bernstein falava de música e linguagem. Na conferência “The principle of hope”, proferida no 13º aniversário do Berkshire Music Centre, a esperança é o tema. Bernstein foi incansável, impulsionado pela necessidade imperiosa de partilhar a sua paixão pela música, na afirmação da esperança, na certeza de que, através das artes e da música, poderíamos tornar o mundo num lugar melhor: “We who were sitting there in 1940 were a generation of hopers.” Ou “It’s the artists of the world, the feelers and the thinkers, who will ultimately save us, who can articulate, educate, defy, insist, sing and shout the big dreams.”

 

 

Hoje, dia 14 de outubro de 2011, em Tanglewood, a Orquestra irá tocar um bailado (ou poema sinfónico), obra rara, baseado num conto de fadas: “The wooden prince”, de Bela Bartok. Nós, aqui no Cria Cria, vamos pegar numa das obras escritas por Leonard Bernstein: “O mundo da música”, na edição da Livros do Brasil, com tradução de Manuel Jorge Veloso. Depois, vamos sentar-nos e rever alguns dos seus inesquecíveis programas “Young people’s concerts”. Claro que a tecnologia televisiva usada era ainda primitiva – há distorções de imagem e o som não é brilhante (geralmente mono, ou remisturado, exceto nos cinco últimos concertos, já em stereo). Mas quem se importa? Mesmo a preto e branco, mesmo com desfocagens, há um discurso musical pejado de poesia e emoção, há clareza e técnica, há interatividade e há perguntas complexas e divertidas, há surpresa e variedade, clássicos conhecidos e compositores recentemente descobertos, há folk e música latina, da Broadway aos Beatles. Mas há, sobretudo, a presença e a voz de um músico, um verdadeiro contador de histórias apaixonado.

 

 

Inicialmente aos sábados de manhã, os “Young people’s concerts” foram transmitidos durante três anos na CBS, em horário nobre, passando depois para os domingos à tarde. Duravam cerca de uma hora. Era pouco. Por lá passaram convidados ilustres, como Christa Ludwig ou Walter Berry, um Gunther Schuller muito novinho, uma Natania Devrath cantando Villa-Lobos, e até uma injustamente desconhecida Marni Nixon (que dobrava as vozes cantadas de Natalie Wood, Audrey Hepburn ou Deborah Kerr). Não eram concertos comentados vulgares, tão na moda em Portugal e tantas vezes tão mal engendrados. Os “concertos para jovens” de Leonard Bernstein eram verdadeiras aulas de apreciação estética musical. E, graças a ele, muitos aprenderam a gostar de música.

 

 

A procissão com o corpo de Leonard Bernstein percorreu as ruas de Manhattan até ao cemitério de Green-Wood, Brooklyn. Pelo caminho, passaram por um edifício em construção. Todos os trabalhadores pousaram baldes, pás e martelos, tiraram os capacetes amarelos e acenaram, dizendo: “Goodbye, Lenny!”.

 

 

Paula Pina

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“Os cinco”, de Enid Blyton

 

Nós também éramos cinco. É certo que o nosso cão, um rafeiro de pelo preto e feitio abominável, chamado Piloto, não possuía os dotes detetivescos de Tim. Era um perfeito desapontamento enquanto membro do “clube”. Pressentindo decerto o nosso desgosto por não ser também um border collie corajoso, divertido e astuto, limitava-se a ficar no alpendre, em poses de imperador romano coroado, banhando-se ao sol. Para cão de caça, estranhamente, as suas atividades mais enérgicas consistiam em soltar rosnadelas às lagartixas, perseguir a própria cauda, lançar uns latidos gabarolas aos cães da vizinhança, roer uma bota velha ou mordiscar-nos os tornozelos quando não lhe ligávamos. Nada parecido com o inteligente Tim.

Havia depois a comida. Nós, criados de acordo com os melhores princípios da dieta mediterrânica, suplicávamos que nos fizessem um pequeno almoço de ovos com bacon, implorávamos por pickles e sandwiches de pepino ou presunto. Nunca se bebeu tanta limonada. Nunca se saboreou tanta torta de ameixa.

A liberdade e a independência de que gozavam os protagonistas causavam-nos alguma perplexidade e inveja. As viagens, os acampamentos, os espaços e ambientes descritos, as pistas e os mistérios, os perigos e os malfeitores, passavam das cerca de 190 páginas escritas para a nossa imaginação, em ligação direta, apenas com o suporte descompassado das ilustrações a preto e branco de Eileen Soper (1905-1990).

 

 

A edição da Editorial Notícias premiava-nos ainda com uma fotografia a cores, na capa, retirada de algum filme ou série que desconhecíamos. Só mais tarde surgiram os episódios televisivos (de 1978), com uma canção cuja letra não entendíamos, mas que cantávamos a plenos pulmões, articulando com toda a convicção fonemas inventados, até chegarmos ao refrão:

 

We are the famous five:
Julian, Dick and Anne,
George and Timmy, the do-o-o-og…

 

 

A Oficina do Livro aposta agora na reedição destes clássicos juvenis de mistério e aventura, escritos por Enid Blyton (1897-1968), em plena II Guerra Mundial (1942). Retirou as ilustrações de Eileen Soper, mas incluiu uma nota de Sophie Smallwood, neta da autora.

Comparando, por exemplo, a edição de 1952 (na tradução de 1977), assinala-se a tentativa de atualizar referências, e simultaneamente, opta-se pela inclusão de elementos que na altura, em Portugal, teriam sido alvo de condenação. Os protagonistas usam agora ténis e calças de ganga, e não calções; a Ana, de dez anos, brinca com peluches ou cartas de paciência, e não com bonecas. Já não recebem, pelo Natal, comboios ou bonecas com olhos que abrem e fecham e que se parecem com a Branca de Neve, mas, em compensação, na edição atual, alguém oferece um canivete de três lâminas ao David, sem censura. Desaparecem fórmulas de tratamento típicas, como “mãezinha” e “paizinho”. Incluem-se nomes de locais recorrendo à designação original inglesa (Polseath, em vez de “praia”), e substituem-se alimentos: as crianças bebem agora cerveja de gengibre (“ginger beer”) com naturalidade, e não “laranjada”; comem scones e bolo de gengibre com melaço, não “biscoitos” e “bolo de chocolate”. De vez em quando, o texto lembra-nos que estamos mesmo no século XXI:

 

“O Sol agora iluminava tudo, ainda que estivesse muito baixo, no lado de nascente. Já se sentia calor. O céu estava muito azul e Ana não pôde deixar de notar que parecia pintado de fresco. Ela fazia sempre observações a tempo e os outros achavam-lhe graça.

As nuvens estavam tão cor-de-rosa e o mar tão calmo que parecia impossível que tivesse havido um temporal na véspera.”

(tradução de Maria da Graça Lobato de Faria para a Editorial Notícias, 1977)

 

“O sol brilhava intensamente, embora ainda estivesse baixo, e já fazia calor. O céu estava tão bonito e tão azul que até passou pela cabeça da Ana que alguém se divertira a limpá-lo com muito esmero. Não resistiu e comentou:

– Parece acabadinho de sair da máquina de lavar!

Os outros desataram a rir – de vez em quando a Ana saía-se com cada uma! Mas no fundo perceberam o que ela queria dizer. Sentia-se a frescura do dia, tanto nas nuvens cor-de-rosa no céu azul como no mar tranquilo e brilhante lá em baixo. Mal dava para acreditar que no dia anterior estivera tão agitado.”

(tradução de Mariana Avelãs para a Oficina do Livro, 2011)

 

 

“Os cinco” sobreviveram até hoje, populares como sempre, estoicamente indiferentes à passagem do tempo, divertindo gerações atrás de gerações, atravessando fronteiras linguísticas e geográficas. Os anos podem até passar por eles, muito discretamente, mas a fórmula de Enid Blyton mantém-se intocável.

 

 

livros “Os cinco na ilha do tesouro” e “Os cinco – Nova aventura dos cinco”, de Enid Blyton
ambos Oficina do Livro, 2011
[a partir dos 9 anos]

 

Paula Pina

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Celebrando 75 anos do nascimento de Jim Henson

 

“The Muppet show” completou 35 anos neste mês de setembro. Antecipando o muito aguardado filme, “The muppets”, com estreia em Portugal prevista para fevereiro de 2012, celebramos hoje o aniversário do criador dos fantoches mais amados de sempre, Jim Henson (24 de setembro de 1936 – 16 de maio de 1990), com uma seleção de videos. Alguns parodiam canções famosas, temas musicais clássicos, com interpretações fabulosas (ou bastante duvidosas?):

 

 

Sempre podemos preferir arranjos recentes, versões diferentes, pastiches contemporâneos e coreográficos da banda sonora original, como este videoclip:

 

 

Outros videos recordam-nos momentos altos da série e as intervenções hilariantes de personagens inesquecíveis (algumas evidenciando graves problemas de foro psiquiátrico ou demência confirmada): o sapo Cocas, a Miss Piggy, o Animal, o Gonzo, o Fozzy, o Cozinheiro Sueco, a Águia, o cientista maluco, os velhos rezingões…

 

 

Outros ainda, revisitam cenas divertidas (vergonhosas?) com convidados famosos, como Peter Sellers, Gene Kelly, Roger Moore, Johnny Cash ou Debbie Harry.

 

 

Porque não recordar a interpretação original do Cocas da canção “Bein’ green”?

 

 

E que tal espreitar os trailers do novo filme?

 

 

Paula Pina

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O mistério do detetive do olho de vidro

 

Foi, sem dúvida, o detetive menos carismático, o menos charmoso e, definitivamente, o mais mal vestido de sempre. Usava uma gabardine velha e deformada, de uma cor perigosamente indigna. Conduzia um Peugeot descapotável, modelo 403, de 1954 (um carro raro, já que só se fabricaram 504 exemplares), mas em péssimo estado de conservação. Fumava com evidente prazer uns charutos deploráveis e parecia sempre ter passado a noite a vasculhar em caixotes de lixo.

Os episódios da série televisiva, apesar de formulaicos, eram quase sempre brilhantes; os assassinos, eram invariavelmente espertos, o que constituía sempre um desafio; os enredos, eram interessantes, no seu estilo “open-book”, com o crime a desenrolar-se à nossa frente, expondo o culpado logo de início. Gostava particularmente daquele momento em que, parecendo desistir da investigação, o detetive voltava atrás subitamente, e, com o seu peculiar jeito atrapalhado e inconveniente, dizia: “just one more thing”. Com essa “one more thing” resolvia geralmente o mistério e apanhava o criminoso.

 

 

Sabemos também muito pouco acerca da vida familiar deste tenente da polícia de Los Angeles, brigada de homicídios, excetuando talvez as referências esporádicas à mulher (que conduz o carro novo) e a um cão. Igualmente deliciosa, a curiosidade bizarra e inesperada relativamente a pequenas coisas sem importância, o que costumava deixar os interlocutores desconcertados. Depois de um interrogatório duro, por exemplo, era capaz de perguntar subitamente: “Quanto pagou por aquela mala? Gostava de oferecer uma à minha mulher…”.

 

 

Não era forte, nem alto, nem musculado, nem atlético. Não era destemido, nem corajoso. Detestava violência e barulho de disparos. Não era jovem e enérgico, nem velho e sábio. Não tinha sequer um ar inteligente, nem um discurso arguto, nem uma voz melíflua, nem uns olhos perscrutadores. Na verdade, o seu olhar enviesado sempre foi fonte de fascínio, assim como a voz rouca e os maneirismos verbais e gestuais.

O olhar enviesado, percebi mais tarde, não era estilo. Aos três anos, uma doença maligna obrigara à remoção cirúrgica de um olho. Passou depois a usar um olho feito de vidro. Esse facto não o impediu de se tornar num líder de turma muito popular e num desportista de sucesso no basquetebol e no beisebol. Estudou literatura e ciência política, tirou um mestrado em administração pública e candidatou-se a um lugar na CIA. Foi esse olho de vidro que impediu o seu recrutamento, já no final da 2ª Guerra Mundial, quando se decidiu alistar. A recusa não o demoveu – alistou-se na marinha mercante, como cozinheiro e copeiro: “Lá eles não se importam se és cego ou não. O único que tem de ver bem no navio é o capitão. E no caso do Titanic, ele também não conseguiu ver lá muito bem…”. Há, aliás, uma história deliciosa, acerca da chegada do jovem copeiro ao camarote, que iria ter de partilhar com um matulão de ar ameaçador. Parece que, quando confrontado com a pergunta acerca de qual o problema físico que lhe impedira o recrutamento, ele se sentou e, calmamente, começou por tirar a ponte dentária que usava, colocando-a sobre a mesinha. Depois, extraiu o olho. Quando começou a fingir que desenroscava uma das pernas, o marinheiro com ar de poucos amigos teve uma súbita necessidade de ir até ao convés apanhar ar…

Tornou-se ator. Devido à sua deficiência física, atribuíam-lhe geralmente papéis menores, mas foi essa mesma deficiência física que o tornou especial, pois é o seu olhar de vidro que recordamos até hoje. A voz também. Vale a pena ouvi-lo como avô narrador, no filme de 1987 “The Princess Bride”. O presente que traz para o neto doente é um livro, o mesmo livro que o seu pai lhe lia quando estava doente, e que antes dele o avô lia ao seu pai, no tempo em que a televisão era feita de… livros.

 

 

Vale a pena revê-lo, o detetive do olho de vidro, ar de vagabundo e astúcia de Sherlock Holmes, a assobiar ou a cantarolar a velha melodia de uma lengalenga infantil inglesa:

This old man, he played one
He played knick-knack on my thumb
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played two
He played knick-knack on my shoe
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played three
He played knick-knack on my knee
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played four
He played knick-knack on my door
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played five
He played knick-knack on my hive
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played six
He played knick-knack on my sticks
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played seven
He played knick-knack up in heaven
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played eight
He played knick-knack on my gate
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played nine
He played knick-knack on my spine
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played ten
He played knick-knack once again
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

 

 

Morreu neste verão, em junho. O ator chamava-se Peter Falk. Nasceu a 16 de setembro de 1927. O detetive chamava-se Columbo.

 

 

Paula Pina

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Woody Woodpecker

Li recentemente um artigo sobre a relação entre programas televisivos e violência infantil e juvenil. Nesse artigo fazia-se um resumo das principais linhas de investigação acerca do tema e debatia-se, sumariamente, o resultado de diversas experiências, conduzidas um pouco por todo o mundo, quer em laboratórios bem apetrechados e por equipas constituídas por cientistas afamados, quer em humildes comunidades esquecidas, lideradas por jovens aspirantes a investigadores. Embora inconclusivo, porque inconclusivos ou discutíveis foram também os relatórios das experiências, o artigo referia, de passagem, um estudo laboratorial em particular, desenvolvido em 1956, com uma amostra de 24 crianças. O grupo foi dividido em dois: 12 crianças visualizaram um episódio de Woody Woodpecker, o famoso Pica-Pau criado em 1940 por Walter Lantz; as outras 12 viram um episódio de “The little red hen” (“A pequena galinha ruiva”).

Ora, se a memória me não atraiçoa, “The little red hen” é uma pequena fábula, de origem russa muito provavelmente, e com intuitos moralizantes óbvios: a galinha pede ajuda a vários animais para plantar o milho, colher, moer e fazer o pão e os bolos, mas todos se recusam, de forma mais ou menos descarada, e recorrendo a desculpas tolas. Claro que, depois do trabalho feito, estão todos prontos para participar do banquete. A galinha recusa-se então a partilhar os resultados do seu esforço e castiga a falta de solidariedade e de ajuda, alimentando orgulhosamente apenas os seus pintainhos. Na versão da Disney, “The wise little hen”, com a presença de um Pato Donald estreante, surge uma mesa coberta de delícias feitas de milho e fabulosas maçarocas (sim, também há uns pontapés, mas nada por aí além…).

 

 

Por outro lado, se bem me lembro, Woody Woodpecker era uma personagem bizarra, de raça indefinida e de sucesso inesperado junto das audiências. Era uma ave de poupa vermelha e corpo azul (variáveis), dona de uma mente tresloucada (sempre) e uma personalidade bem disposta, dotada de uma energia histérica e com um riso absolutamente singular (ainda que com vozes variáveis). Claro que o estereótipo da época se fazia sentir nos gags alucinantes, desde os nomes das restantes personagens à fisicalidade absurda das suas iniciativas, passando pelas paródias e autoreferências.

Curiosamente, o que sempre me fascinou no Woody Woodpecker nada tinha a ver com a violência dos gestos. Nada tinha a ver com a comicidade das situações. O que mais admirava era as maravilhosamente pictóricas e psicadélicas explosões de cor, irradiando do ecrã após explosões, pancadas, choques, entaladelas, apertões, pontapés e outras torturas, em imagens que sempre me pareceram quadros abstratos em movimento; a música, claro, a banda sonora; e a voz estranha, às vezes meio masculina e outras feminina, do Pica-Pau, e o seu inesquecível riso em staccattos diafragmais (que eu secretamente treinava). Relembremos a primeira aparição pública de Woody Woodpecker, em novembro de 1940, num episódio da série “Andy Panda”:

 

 

Depois de ler o artigo, confesso, fiquei um bocadinho apoquentada. Tanta violência televisiva que digerimos na infância, sem qualquer tipo de controlo parental ou escolar, deve ter afetado, senão grave, pelo menos parcialmente, o nosso desenvolvimento cognitivo, psicológico, afectivo, relacional, social. Foram tantas as marteladas a que assisti nessa época, que, certamente, num destes dias, acordarei enfiada num colete de forças. Só desejo que as gargalhadas de loucura que vier a soltar sejam parecidas com as do Woody Woodpecker…

 

dvd’s “As aventuras de Pica-Pau” (“The Woody Woodpecker show”)
Público, 2011
[a partir dos 6 anos]

 

Paula Pina

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Vende-se: Panthermobile

Turum… turum… turumturumturumturumturuuuum… turururum… É um… motor? Não. É uma música!… Damos uma ajuda: qual é a cor qual é ela, de todas as cores a mais bela? Resposta difícil? Mas… e se substituíssemos “bela” por “icónica”? Qual é a cor mais icónica da história do cinema? Qual é a cor que vem acompanhada por um tema musical jazzístico imediatamente reconhecível? Qual é a cor, já agora, que é indissociável de um felino televisivo de gestos vagamente efeminados? Qual é a cor que poucos apreciam num veículo (exceto em veículos de pedal, de duas ou três rodas, e para meninas com idade inferior a oito anos)?

 

 

Cor de rosa! Pois é mesmo cor de rosa, o cor de rosa da série da NBC “Pantera cor de rosa”, o cor de rosa do tema musical de Henry Mancini, um cor de rosa vibrante, radical, psicadélico, único. Único também é o Panthermobile, criado em 1969 por Jay Ohrberg, o mesmo designer lendário de Hollywood que, entre outras extravagâncias automobilísticas, concebeu os Batmobiles do Batman, o DeLorean DMC-12 de Marty McFly (o herói de “Regresso ao futuro”), o K.I.T.T. de Michael Knight, o Ford Gran Torino de Starsky & Hutch, o General Lee dos “The Dukes of Hazzard”, e, claro, os carros da idade da pedra dos Flintstones. No site Pink Panther Car anuncia-se agora o leilão do Panthermobile, pela internet, entre os dias 4 de setembro e 14 de outubro. O veículo, embora sem licença de circulação, está em perfeito estado de conservação, afirmam. Necessita, confessam depois, de pequenas afinações ou reparações (o motor recusa-se a trabalhar, sabe-se lá porquê). 100 mil libras, dizem também, poderá ser o valor atingido.

 

 

É um automóvel desconcertante. É exemplar único. E é cor de rosa. Foi conduzido por uma criança no genérico da série. Qual o adulto que irá acrescentá-lo agora à sua coleção particular de brinquedos? Não sabemos. Mas gostaríamos que nos convidasse um dia para ir brincar com ele. Talvez então, com as portas da luxuosa garagem abertas de par em par, o Panthermobile voltasse a atacar, perdão, voltasse a trabalhar: Turum… turum… turumturumturumturumturuuuum… Turururum…

 

 

Paula Pina

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Maratona e juventude

Hoje, dia 12 de agosto, comemora-se o Dia Internacional da Juventude, uma proposta nascida na Conferência Mundial de Ministros Responsáveis pela Juventude, realizada em Lisboa, precisamente de 8 a 12 de agosto de 1998, ano da Expo.

No Dicionário da Academia das Ciências, “juventude” é a última entrada na letra J. Aí podemos ler, entre outras, esta definição: “Juventude: conjunto de atributos próprios dos jovens, que podem manter-se nos adultos.”

Também num dia 12 de agosto, desta vez de 1984, um atleta português, Carlos Lopes, conquistou, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, a primeira medalha de ouro para Portugal. Coladas ao pequeno ecrã do televisor, ainda a preto a branco, e um dos poucos na aldeia da serra algarvia, gerações inteiras de famílias em férias ou em pausa de trabalho no campo, ouviam o relato entusiástico do locutor. As imagens, essas, ficaram gravadas numa cassete beta, de dois lados, e já em muito mau estado, que foi passando de casa em casa, de mão em mão, desde os primos emigrantes ao tio-avô semi-adormecido no quarto dos fundos.

Foi uma maratona rapidíssima, recorde mundial, sob o sol abrasador da Califórnia. A camisola, com o número 723, parecia grande demais para o corpo magro de Carlos Lopes. Tinha quase 40 anos.

 


 

Paula Pina

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A abertura de “Guillaume Tell”, de Gioachino Rossini

Quando Rossini compôs a abertura de “Guillaume Tell”, estreada a 3 de agosto de 1829, em Paris, não pensou certamente no destino que a esperava. Baseada numa lenda suíça, esta ópera, com libreto de Étienne de Jouy e de Hippolyte-Louis-Florent Bis (a partir de um texto de Friedrich Schiller), e em particular a sua abertura, evoca hoje outras heranças. Muitos associam ainda Wilhelm Tell ao episódio do herói caçador que, em ato de rebelião contra um tirano, acaba por ser obrigado a acertar numa maçã pousada na cabeça do filho com o seu arco e flecha. Todavia, a popularidade com que a obra é recorrentemente citada, como é o caso da sinfonia n.º 5 de Shostakovich, acabou por transformá-la num marco parodístico. Por outro lado, a utilização no cinema de animação, precisamente pela sua dimensão impressionista e carga imagética, torna-a na banda sonora ideal para tempestades, auroras e cavalgadas.

Para os fãs de Walt Disney, recordemos o Mickey maestro, em 1935, dirigindo a abertura em “The band concert”. Num concerto ao ar livre, encontramos um esforçado regente que tenta conferir seriedade e rigor interpretativo a uma performance que acaba por resultar numa deliciosa mistura de estilos e ritmos, num jogo em que o cómico de situação e de personagem é adjuvado pelas múltiplas e divertidas incongruências técnicas (como por exemplo os posicionamentos incorretos e/ou impossíveis dos instrumentos), e pelas citações e transições musicais inesperadas. Um dos momentos altos do filme sublinha as semelhanças pontuais entre uma secção da melodia de Rossini e uma canção popular americana, “Turkey in a straw”, usada por músicos ambulantes e vendedores de gelados desde meados de 1820-30. Na verdade, quando o vendedor de gelados Pato Donald, com coerência e hercúlea determinação, toca “Turkey in a straw” no seu pífaro (melhor, nos seus pífaros em permanente reprodução), toda a orquestra o segue sem hesitação. Uns minutos mais tarde, os movimentos corporais do rato Mickey, tentando livrar-se do incómodo que será ter uma bola de gelado a escorrer pelas costas abaixo, suscitam, por parte da orquestra, a transição imediata para um estilo dança do ventre.

Diz-se que o maestro Arturo Toscanini, quando viu o filme pela primeira vez, gostou tanto que saltou de rompante para a zona técnica, pedindo a um projecionista perplexo que o voltasse a passar.

 

 
E para os fãs da banda desenhada, que vibram ainda com as memórias da cavalgada de “The lone ranger”, o Mascarilha, no seu cavalo branco, Silver, no genérico das séries, em filme e em desenhos animados que passaram na RTP, aqui temos novamente Rossini:

 

 

 

Aguardamos agora que, na senda de “Os piratas das Caraíbas”, e também com realização de Gore Verbinsky, Johnny Depp encarne Tonto, o índio amigo e companheiro de Lone Ranger, no combate à injustiça e aos fora da lei. Com um pouco de sorte, talvez o nome de Rossini continue a figurar na ficha técnica.

 

Paula Pina

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Alexandre Dumas e o romance de aventuras

Os melhores amigos são
Os três Moscãoteiros
Quando em aventuras vão,
são sempre os primeiros…

 

A musiquinha já está a tocar na cabeça? Já se lembram das personagens? Já lhes ouvem as vozes?

(…)

Apercebi-me recentemente que há crianças, da geração das consolas sofisticadas, que brincam aos índios e cowboys, embora nunca tenham lido um western ou visto uma única aventura de capa e espada. Quem cresceu com os romances de aventuras portugueses lembrar-se-á do Capitão Morgan, que, a partir de Emilio Salgari, nas versões da Romano Torres, enche de terror os navios espanhóis e se comporta como um verdadeiro cavalheiro, em vigorosos ajustes de contas com os grandes, com os injustos, com os poderosos. Dos anos 40, herdámos ainda “Les trois Mousquetaires”, na tradução de 1851, e “Le Comte de Monte-Cristo”, de 1845, ambos de Alexandre Dumas (pai). E quem se lembra dos despojos paternos das coleções dos anos 60, dos livrinhos de índios e cowboys dos pais, em versões cada vez mais fininhas?

 

 

Escreve Eça de Queiroz nas suas “Notas contemporâneas” (Ed. Livros do Brasil, s.d., p. 188), a propósito do declínio do naturalismo: “A simpatia, o favor, vão todos para o romance de imaginação, de psicologia sentimental ou humorista, de ressurreição arqueológica (e pré-histórica!) e até de capa e espada, com maravilhosos imbróglios, como nos robustos tempos de D’Artagnan.” Mas o mesmo Eça coloca um volume escrito por Dumas à cabeceira de Ega em “Os Maias”. E Camilo, no prólogo de “A caveira”, em “Cenas contemporâneas”, ironiza sobre a “mentira no romance”.

A inexorável ascensão do cinema e da televisão, com as suas séries para os mais novos, fez esquecer Alexandre Dumas, galã, aventureiro, viajante, escritor, criador de uma das mais eficientes oficinas de escrita, que enchia de interesse os rodapés das revistas parisienses. Dumas vive nos desenhos animados que viram todos aqueles que nunca leram Dumas (e cuja banda sonora, muito provavelmente, não irão conseguir tirar da cabeça durante o resto do dia, depois de lerem este post). Dumas vive, ainda, na imaginação destas crianças que hoje brincam e que também nunca o leram. Talvez o leiam, um dia, desejamos nós.

 

Quando eles vão combater
Já não há rival algum
O seu lema é um por todos
E todos por um…

 

 

 

 
Paula Pina

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