Category Archives: Ram Ram

“Há festa na aldeia”, “As férias do Sr. Hulot”, “O meu tio” e “Vida moderna”, de Jacques Tati

 

A primeira destas longas metragens tem um estrábico que martela sempre ao lado do alvo e que, algumas cenas depois, faz pontaria numa barraca de prémios na feira; tem uma mosca que importuna todas as pessoas com que se cruza (até o tocador de pratos da orquestra, como em “The band concert”, a obra-prima de Walt Disney protagonizada por Mickey e Donald em 1935); tem uma festa popular que inclui uma tenda que exibe um filme sobre a Continue reading

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Exposição “A cidade da muralha” no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitetura, Guimarães

 

A fotografia é da década de 1920, mas as crianças parecem subtraídas a uma idade sem idade, a um tempo sem tempo, a uma idade suspensa no tempo. São alunas e Continue reading

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Músicas, presépios e anjos de papel

 

Por esta altura, começavam os ensaios. Escolhia-se o repertório natalício, selecionando peças tradicionais, clássicas e populares, para agradar a todos. Alguns tocavam (geralmente guitarra, orgão, acordeão, bandolim, harmónica ou flauta). Uns poucos, raros, frequentavam escolas de música de associações recreativas ou começavam a tocar em bandas filarmónicas. Um ou outro cantava, um pouco contrariado, aos domingos, no coro da igreja. Apanhavam-se as melodias de ouvido, ensaiavam-se harmonias, buscavam-se cifras. Faziam-se arranjos, muitos deles claramente inspirados pelas “assombrosas” edições do “Orgão mágico”, da Continue reading

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Coleção “Senhoras e senhores”, de Roger Hargreaves

 

Custam 2,99€ (com oferta de autocolantes) e foram há poucas semanas lançados pela Editorial Presença. O formato é adequado para as mãos pequeninas e para as mãos grandes que não gostam de longas e entediantes leituras. De facto, as historietas duram no máximo cinco minutos de leitura em voz alta. As ilustrações são coloridas, de um gosto naïve, as personagens cartoonísticas e icónicas na representação caricatural e/ou absurda (mesmo tola e assumidamente básica) de caraterísticas, comportamentos e emoções humanas, tornadas ainda mais humanas e incongruentemente Continue reading

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Recordando Helen Siegl

helen siegl 1

 

A artista austríaca Helen Siegl (1924 / 2009), católica devota, ativista e pacifista, viveu os horrores do nazismo, emigrando depois para o Canadá e estabelecendo-se nos Estados Unidos. Gravadora exímia, as suas litografias e trabalhos em madeira e gesso, com temáticas religiosas e bíblicas, têm como protagonistas frequentes crianças, plantas e animais, e expressam, com uma singularidade extraordinária, uma transcendente capacidade de Continue reading

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“A sombra do caçador”, de Charles Laughton

 

O ator Charles Laughton mascarou-se apenas por uma vez como realizador, mas dessa fugaz experiência assomou “A sombra do caçador”, superlativa parábola versando a sobrevivência da moral como imperativo irredutível da espécie humana, sem assertividades dogmáticas de conveniência. Uma jornada de assombramento de um falso profeta que aperfeiçoa a sua arte de ler apenas as linhas tortas do evangelho como forma de escrever direito a palavra divina, até encontrar no ceticismo e na perícia estratégica de um menino de nove anos a Continue reading

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O Quarteto 1111 em 11 do 11 do 11

 

Abundaram as previsões, discussões, prognósticos, rituais, medos ou celebrações, a propósito e a despropósito desta data recheada de numerológicos simbolismos. Aqui, no Cria Cria, decidimos abrir uma Continue reading

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Antes do Halloween

No Dia de Todos os Santos, as mesas eram postas. Amassava-se a broa de milho, com erva doce, mel e azeite, que ia ao forno sobre folhas de figueira ou de couve. Em grandes tachos, estavam as papas de milho (o xarém) ou de abóbora menina. Fazia-se a melada, chá e licor de romã (três romãs, três decilitros de aguardente, 150 gramas de açúcar mascavado e a raspa de um limão). Jarros de vinho e garrafas de aguardente de medronho passavam de mão em mão. Depois, começava o rodopio: gente das aldeias, crianças, mendigos, gente de fora, de passagem. Pediam o “Pão por Deus” e tinham fome. Oferecia-se pão, chouriço, frutas (figos secos, pinhões, amêndoas, romãs, castanhas, nozes, marmelos, uvas). Em Lisboa, esta tradição ganhou força depois do terramoto, explicam alguns estudiosos.

 

Claude Monet, “Still life with melon”, 1872

 

Décadas depois, já eram só as crianças, com saquinhos bordados nas mãos, que iam de porta em porta, cantando: “Pão por Deus / Fiel de Deus / Bolinho no saco /Andai com Deus”, na cidade; ou, na serra algarvia, “B´linh, b´linh / P´l´alma d’ sé defuntinh’”. “As alminhas andam perdidas por esses serros”, diziam-nos. O verão acabava, o inverno começava. Acendia-se uma fogueira ao pôr do sol e deixavam-se as portas abertas. Avisavam-se sempre os mais pequenos para terem cuidado com o Continue reading

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Recordando Charles-Émile Reynaud e Vasco Granja no Dia Mundial da Animação

 

Charles-Émile Reynaud (1844-1918), num acesso de raiva, deitou ao rio Sena as suas máquinas e filmes. Os filmes eram apenas películas perfuradas com imagens pintadas à mão, “desenhos em movimento” dançando em 50 metros de banda, perfazendo um total de 40 minutos de projeção por três bandas. As máquinas eram praxinoscópios. Quanto a Charles-Émile Reynaud, foi o fundador da moderna cinematografia, ao projetar no Museu Grévin, em Paris, e para pasmo das audiências, o seu Théâtre Optique, no dia 28 de outubro de 1892. A razão do acesso de fúria: o advento do cinematógrafo dos irmãos Lumière.

Curiosamente, do outro lado do Oceano Atlântico, no mesmo dia 28 de outubro de 1892, inaugurava-se aquele que é, hoje ainda, um símbolo imediatamente reconhecível, mesmo para qualquer distraído ou contrariado frequentador de salas de cinema: a estátua da liberdade, que inspiraria a imagem de marca da produtora e distribuidora Columbia Pictures.

Recordamos estas histórias no Cria Cria porque se celebra hoje o Dia Mundial da Animação, um evento simultâneo que envolve o intercâmbio entre instituições congéneres, a nível mundial, em mais de 50 países, e que em Portugal ganha expressão em múltiplas iniciativas, um pouco por todo o território, e numa programação vasta, centralizada pela Casa da Animação, Porto, na qual se destaca a produção nacional e o premiado Shaun Tan que, com Andrew Ruhemann, criou “The lost thing”:

 

 

Recordamos estas histórias no Cria Cria também porque nos lembramos muito bem do tempo em que não havia salas de cinema com filmes para crianças ou videotecas (haver bibliotecas com secção infantil era um luxo). Lembramo-nos ainda da televisão a preto e branco (e só para alguns), em que apenas um programa na RTP, anódina e asseticamente intitulado “Cinema de animação”, começou a divulgar, a partir de 1974 e durante 16 anos, milhares de obras do género. Os recursos eram escassos, mas havia variedade e ousadia. Por detrás do tão atacado “amadorismo” e do inglês arrevesado, havia a determinada paixão de um autodidata convicto – Vasco Granja -, com a chancela superior do balcão da Tabacaria Travassos, a garantia dos Armazéns do Chiado, os títulos académicos da Livraria Bertrand, a experiência formativa dos cineclubes e das prisões da PIDE. Foi com ele que pela primeira vez ouvimos falar de anime, devorámos Looney Tunes e Warner Bros., absorvemos animação experimental vinda de leste e oeste, descobrimos Peter Foldes e Norman McLaren. Havia convidados (pequenos e crescidos) e concursos. O que Vasco Granja fez com edição portuguesa da revista Tintin (1968) foi notável: escrevia, traduzia, respondia aos leitores. Continuamos a descobrir ainda hoje tudo o que vimos nessa altura. Continuamos a descobrir que tudo faz sentido. Gostaríamos que todas as crianças soubessem como se diz “Fim” em polaco. Nós sabíamos: “Koniec”.

 

Paula Pina

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A pedagogia eletrónica de Morton Subotnick ao vivo em Lisboa e em projeto online interativo

 

“Aprender criando” poderia ser a máxima de Morton Subotnick (nascido em 1933), um dos mais inovadores compositores e dedicados pedagogos nas áreas da música eletrónica e multimedia, que nos visita amanhã (sábado, 22 de outubro) para um concerto na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. Nos idos anos 60 do século XX, foi um dos pioneiros no uso do sintetizador analógico modular construído por Donald Buchla (e para o desenvolvimento do qual Subotnick também contribuiu decisivamente). Os arrojados efeitos sonoros experimentais que criou em 1967, com a obra “Silver apples of the moon”, que agora vem apresentar numa versão revista, fizeram do seu nome uma referência histórica transdisciplinar. Hoje ainda, a sofisticação tímbrica e rítmica, as suas texturas contrapontísticas complexas, as continuidades sonoras baléticas e coreografáveis, a sua musicalidade expressiva e teatral, continuam vivas, misteriosas e sedutoras. Som, palavra, gesto, movimento formam indestrutíveis parcerias, contextualizadas agora num universo multimedia.

 

 

Mas Morton Subotnick é também um pedagogo atento e ousado, responsável pela criação de novas estratégias e ferramentas criativas para a educação musical infantil. O seu papel enquanto criador do California Institute Of The Arts ou os seus incansáveis contributos para a reformulação de empoeirados curricula em educação artística credenciam-no suficientemente para que decidamos espreitar, sem mais delongas, o seu projeto online Creating Music. Para além de anunciar seis CD-ROMs, o site fornece um ambiente no qual as crianças podem fazer as suas experiências musicais criativas, jogando, compondo as suas próprias peças e ouvindo-as em tempo real, mesmo sem saberem ainda decifrar a notação musical convencional. Editar, alterar, inventar, avançar, recuar, duplicar, escolher, ouvir, tocar, compor, decifrar, comparar, são verbos que se concretizam em experiências sonoras diversas, como puzzles e jogos. Mas o site não se esgota na dimensão lúdica, não condescende nem banaliza: os jogos oferecem exemplos claros que ajudam a entender conceitos musicais difíceis, como timbre, altura, ritmo, tempo, melodia, dinâmica, estrutura, escala, notação. Para educadores e professores usarem de vez em quando na sala de aula. Para pais e filhos brincarem juntos.

 

22 outubro, 11 pm
Morton Subotnick
Zé dos Bois, Lisboa
[a partir dos 10 anos]

 

Paula Pina

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Leonard Bernstein

 

Foi em Tanglewood que Leonard Bernstein (25 de agosto de 1918 – 14 de outubro de 1990) fez a sua formação e iniciou a carreira de maestro. E era a Tanglewood que voltava sempre, para ensinar, mesmo em período sabático, em detrimento de tournées agendadas e concertos esgotados nas salas mais importantes das grandes capitais do mundo. Também em Tanglewood terminou a sua carreira, em 1990.

 

 

Talvez estivesse encantado, como Nathaniel Hawthorne, autor de “Tanglewood tales” (1853), volume de contos cujo título mágico nomeia, hoje ainda, o centro educativo e cultural da Boston Symphony Orchestra. Veem-se as montanhas Berkshire, ao fundo, e o lago Stockbridge Bowl espreita por entre as moitas e extensos relvados. O espaço está serenamente salpicado de cadeiras de lona e guarda sóis. De vez em quando, um pequeno grupo abre uma cesta de piquenique. Sob a sombra, alguém se curva sobre uma partitura. Chegam-nos sons distantes de cordas. Os edifícios parecem hangares ou celeiros gigantes, acolhendo quem chega e abrindo-se para o exterior, inundados de luz durante o dia, iluminando os relvados à noite. As pessoas, de todas as idades, trazem as suas cadeiras e mantas, enquanto ecrãs gigantes projetam imagens da orquestra.

 

 

Bernstein fundou institutos, escolas e uma classe mundial de prática orquestral, no Schleswig Holstein Music Festival. Fundou o Pacific Music Festival, em Sapporo, Japão, importando o modelo de Tanglewood. Havia quem o encontrasse, fazendo o seu jogging alegremente, ou cruzando os caminhos serpenteando entre os relvados de Tanglewood no seu Mercedes beige descapotável, acenando aos estudantes. “Sou um rabino disfarçado”, dizia, espreitando por cima das meias lentes dos óculos. Estava sempre a pregar, imbuído de uma espécie de espírito missionário, que considerava mais importante do que tudo o resto. Usava uma camisola desportiva azul bebé, jeans, botas de cowboy, e um lenço vermelho espreitava-lhe do bolso. Os seus elogios eram abundantes: “Great, but I want it twice as great!”. A sua energia levava-o muitas vezes a um exagero nos gestos, com meneios e saltos, rapidamente tornados moda em passos de dança, como o famoso “Lenny’s jump”. Mas a sua exigência, rigor analítico, fervor e perspicácia crítica e psicológica eram ainda mais extraordinárias: “Regra número um para quem toca em grande orquestra: é tudo música de câmara!”. Leonard Bernstein começara a sua carreira de maestro em 1943, substituindo à última hora um Bruno Walter engripado. Tocava-se o “Dom Quixote”, de Richard Strauss. Mais tarde, quem olhasse com atenção, veria que Bernstein usava sempre os botões de punho do seu mentor, o maestro Serge Koussevitzky.

 

 

“In my end is my beginning”, escreveu Bernstein na carta que enviou aos amigos convidando-os para a performance de gala em benefício do Tanglewood Music Centre, coincidindo com o seu 70º aniversário. T. S. Eliot nos “The four quartets” escrevera, em “East Coker”: “In my beginning is my end”. Nas Harvard Lectures, enquanto Charles Eliot Norton Professor of Poetry, Leonard Bernstein falava de música e linguagem. Na conferência “The principle of hope”, proferida no 13º aniversário do Berkshire Music Centre, a esperança é o tema. Bernstein foi incansável, impulsionado pela necessidade imperiosa de partilhar a sua paixão pela música, na afirmação da esperança, na certeza de que, através das artes e da música, poderíamos tornar o mundo num lugar melhor: “We who were sitting there in 1940 were a generation of hopers.” Ou “It’s the artists of the world, the feelers and the thinkers, who will ultimately save us, who can articulate, educate, defy, insist, sing and shout the big dreams.”

 

 

Hoje, dia 14 de outubro de 2011, em Tanglewood, a Orquestra irá tocar um bailado (ou poema sinfónico), obra rara, baseado num conto de fadas: “The wooden prince”, de Bela Bartok. Nós, aqui no Cria Cria, vamos pegar numa das obras escritas por Leonard Bernstein: “O mundo da música”, na edição da Livros do Brasil, com tradução de Manuel Jorge Veloso. Depois, vamos sentar-nos e rever alguns dos seus inesquecíveis programas “Young people’s concerts”. Claro que a tecnologia televisiva usada era ainda primitiva – há distorções de imagem e o som não é brilhante (geralmente mono, ou remisturado, exceto nos cinco últimos concertos, já em stereo). Mas quem se importa? Mesmo a preto e branco, mesmo com desfocagens, há um discurso musical pejado de poesia e emoção, há clareza e técnica, há interatividade e há perguntas complexas e divertidas, há surpresa e variedade, clássicos conhecidos e compositores recentemente descobertos, há folk e música latina, da Broadway aos Beatles. Mas há, sobretudo, a presença e a voz de um músico, um verdadeiro contador de histórias apaixonado.

 

 

Inicialmente aos sábados de manhã, os “Young people’s concerts” foram transmitidos durante três anos na CBS, em horário nobre, passando depois para os domingos à tarde. Duravam cerca de uma hora. Era pouco. Por lá passaram convidados ilustres, como Christa Ludwig ou Walter Berry, um Gunther Schuller muito novinho, uma Natania Devrath cantando Villa-Lobos, e até uma injustamente desconhecida Marni Nixon (que dobrava as vozes cantadas de Natalie Wood, Audrey Hepburn ou Deborah Kerr). Não eram concertos comentados vulgares, tão na moda em Portugal e tantas vezes tão mal engendrados. Os “concertos para jovens” de Leonard Bernstein eram verdadeiras aulas de apreciação estética musical. E, graças a ele, muitos aprenderam a gostar de música.

 

 

A procissão com o corpo de Leonard Bernstein percorreu as ruas de Manhattan até ao cemitério de Green-Wood, Brooklyn. Pelo caminho, passaram por um edifício em construção. Todos os trabalhadores pousaram baldes, pás e martelos, tiraram os capacetes amarelos e acenaram, dizendo: “Goodbye, Lenny!”.

 

 

Paula Pina

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“Os cinco”, de Enid Blyton

 

Nós também éramos cinco. É certo que o nosso cão, um rafeiro de pelo preto e feitio abominável, chamado Piloto, não possuía os dotes detetivescos de Tim. Era um perfeito desapontamento enquanto membro do “clube”. Pressentindo decerto o nosso desgosto por não ser também um border collie corajoso, divertido e astuto, limitava-se a ficar no alpendre, em poses de imperador romano coroado, banhando-se ao sol. Para cão de caça, estranhamente, as suas atividades mais enérgicas consistiam em soltar rosnadelas às lagartixas, perseguir a própria cauda, lançar uns latidos gabarolas aos cães da vizinhança, roer uma bota velha ou mordiscar-nos os tornozelos quando não lhe ligávamos. Nada parecido com o inteligente Tim.

Havia depois a comida. Nós, criados de acordo com os melhores princípios da dieta mediterrânica, suplicávamos que nos fizessem um pequeno almoço de ovos com bacon, implorávamos por pickles e sandwiches de pepino ou presunto. Nunca se bebeu tanta limonada. Nunca se saboreou tanta torta de ameixa.

A liberdade e a independência de que gozavam os protagonistas causavam-nos alguma perplexidade e inveja. As viagens, os acampamentos, os espaços e ambientes descritos, as pistas e os mistérios, os perigos e os malfeitores, passavam das cerca de 190 páginas escritas para a nossa imaginação, em ligação direta, apenas com o suporte descompassado das ilustrações a preto e branco de Eileen Soper (1905-1990).

 

 

A edição da Editorial Notícias premiava-nos ainda com uma fotografia a cores, na capa, retirada de algum filme ou série que desconhecíamos. Só mais tarde surgiram os episódios televisivos (de 1978), com uma canção cuja letra não entendíamos, mas que cantávamos a plenos pulmões, articulando com toda a convicção fonemas inventados, até chegarmos ao refrão:

 

We are the famous five:
Julian, Dick and Anne,
George and Timmy, the do-o-o-og…

 

 

A Oficina do Livro aposta agora na reedição destes clássicos juvenis de mistério e aventura, escritos por Enid Blyton (1897-1968), em plena II Guerra Mundial (1942). Retirou as ilustrações de Eileen Soper, mas incluiu uma nota de Sophie Smallwood, neta da autora.

Comparando, por exemplo, a edição de 1952 (na tradução de 1977), assinala-se a tentativa de atualizar referências, e simultaneamente, opta-se pela inclusão de elementos que na altura, em Portugal, teriam sido alvo de condenação. Os protagonistas usam agora ténis e calças de ganga, e não calções; a Ana, de dez anos, brinca com peluches ou cartas de paciência, e não com bonecas. Já não recebem, pelo Natal, comboios ou bonecas com olhos que abrem e fecham e que se parecem com a Branca de Neve, mas, em compensação, na edição atual, alguém oferece um canivete de três lâminas ao David, sem censura. Desaparecem fórmulas de tratamento típicas, como “mãezinha” e “paizinho”. Incluem-se nomes de locais recorrendo à designação original inglesa (Polseath, em vez de “praia”), e substituem-se alimentos: as crianças bebem agora cerveja de gengibre (“ginger beer”) com naturalidade, e não “laranjada”; comem scones e bolo de gengibre com melaço, não “biscoitos” e “bolo de chocolate”. De vez em quando, o texto lembra-nos que estamos mesmo no século XXI:

 

“O Sol agora iluminava tudo, ainda que estivesse muito baixo, no lado de nascente. Já se sentia calor. O céu estava muito azul e Ana não pôde deixar de notar que parecia pintado de fresco. Ela fazia sempre observações a tempo e os outros achavam-lhe graça.

As nuvens estavam tão cor-de-rosa e o mar tão calmo que parecia impossível que tivesse havido um temporal na véspera.”

(tradução de Maria da Graça Lobato de Faria para a Editorial Notícias, 1977)

 

“O sol brilhava intensamente, embora ainda estivesse baixo, e já fazia calor. O céu estava tão bonito e tão azul que até passou pela cabeça da Ana que alguém se divertira a limpá-lo com muito esmero. Não resistiu e comentou:

– Parece acabadinho de sair da máquina de lavar!

Os outros desataram a rir – de vez em quando a Ana saía-se com cada uma! Mas no fundo perceberam o que ela queria dizer. Sentia-se a frescura do dia, tanto nas nuvens cor-de-rosa no céu azul como no mar tranquilo e brilhante lá em baixo. Mal dava para acreditar que no dia anterior estivera tão agitado.”

(tradução de Mariana Avelãs para a Oficina do Livro, 2011)

 

 

“Os cinco” sobreviveram até hoje, populares como sempre, estoicamente indiferentes à passagem do tempo, divertindo gerações atrás de gerações, atravessando fronteiras linguísticas e geográficas. Os anos podem até passar por eles, muito discretamente, mas a fórmula de Enid Blyton mantém-se intocável.

 

 

livros “Os cinco na ilha do tesouro” e “Os cinco – Nova aventura dos cinco”, de Enid Blyton
ambos Oficina do Livro, 2011
[a partir dos 9 anos]

 

Paula Pina

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Rubik’s Cube, o cubo mágico

Chegavam e sentavam-se no muro de cimento, decorado com azulejos partidos por alguma turma de Educação Visual graças à iniciativa de um professor mais preocupado com a cinzenta fealdade do recinto escolar. Traziam-nos dentro das mochilas verde-tropa, de presilhas de couro encaracoladas, duvidosamente decoradas a caneta Bic azul (normalmente com os símbolos da paz, de grupos anarquistas ou radicais, bandas hard rock ou heavy metal). Outras vezes, extraíam os seus formatos suspeitos dos bolsos dos kispos e das parkas, das camisolas de malha tricotadas pelas mães, e até do peitilho das jardineiras e dos calções de ginástica.

 

 

De início, eram poucos. Alguns, eleitos, aceitavam uma pastilha Gorila como suborno e partilhavam o seu novo, intrigante e viciante brinquedo. Passavam-no de mão de mão, com tempo contado. Trocavam-se trabalhos de casa, garrafas de leite com chocolate da Ucal, beijos e até passes sociais. Depois, passaram a ser mais. Formaram clubes, organizaram concursos na sala de convívio com o aval dos diretores de turma. Deixaram de ser tão misteriosos. As versões de plástico 3x3x3, seis faces, seis cores, conquistaram as famílias mais reticentes, aplaudia-se o génio nos irmãos mais novos que resolviam com uma facilidade ofensiva os problemas de configuração que deixavam os mais velhos boquiabertos.

 

 

De quando em quando aparecia um Pyraminx ou um Skewb. Raramente, um MegaMinx ou um Skewb Diamond. Um pouco por todo o lado, o seu deslizar crocante, as coreografias de cores, a dança dos dedos, a cabeça ligeiramente inclinada, as breves pausas de avaliação entre movimentos: nos intervalos das aulas e debaixo da carteira, à socapa durante as aulas mais aborrecidas; nas paragens de autocarro e durante as viagens de comboio; ou noutros locais insuspeitos ou inusitados, como sanitários, repartições, orquestras, esquadras, barbearias. Entrava-se na papelaria e saía-se com a caderneta de cromos; havia os concursos na televisão e ouvia-se na rádio a canção da Lara Li. Criaram-se amizades duradouras e romperam-se ligações intocáveis por causa da febre do cubo mágico.

 

 

O cubo mágico começou por ser um protótipo de madeira, desenhado como passatempo por um apaixonado da geometria, o professor Erno Rubik, em 1974, para demonstrar aos seus alunos de arquitetura e design de interiores, da Academia de Artes de Budapeste, o princípio do tridimensionalidade aplicada. Lançado na Hungria em 1977, sucesso da Feira de Brinquedos de Nuremberga em 1979, o cubo mágico tornou-se sucesso mundial de vendas, transformando o seu surpreendido criador no primeiro milionário empresarial socialista. Em três anos, uma em cada três pessoas na Europa e Estados Unidos se tornara o fanático ou o frustrado possuidor de um cubo mágico.

O princípio matemático subjacente ao brinquedo-invento-quebra-cabeças é ainda alvo de investigação recente no M.I.T.. Das 43 252 003 274 489 856 000 quintiliões de possibilidades que os 26 cubinhos, 54 faces e seis cores oferecem, uma apenas será a chave. Na página de tecnologia do site da B.B.C. News, podemos ficar a saber que 30 anos após o aparecimento do cubo, uma equipa de cientistas prova que a solução possível até agora contempla um mínimo de 20 movimentos. Afirma Erik Demaine, um desses cientistas: “A minha vida sempre se direcionou para a resolução de problemas que eu considero divertidos. É sempre difícil dizer logo na altura o que é que vai ser importante. Estudar números primos foi só uma atividade recreativa. Não teve importância prática nenhuma durante centenas de anos, até à chegada da criptografia.”

 

 

Ícone dos anos 80, o cubo mágico inspira ainda cientistas e fanáticos, mas também designers e artistas (como o Cube Works Studio ou os Space Invaders, que constroem retratos de inspiração pop com cubos mágicos). O cubo mágico brilha ainda na publicidade (como no anúncio do Cubo versus Playstation) ou no cinema (em cameos em “Super 8”, de J.J. Abrams, ou em “Os bem-amados”, de Christophe Honoré, que ontem estreou em Portugal, só para citar dois exemplos muito recentes). Criou-se até uma pastilha cúbica e uma linha de cosméticos inspiradas no seu desenho único.

 

 

Nunca nos interessou descobrir a solução mais fácil do enigma. No You Tube abundam videos que explicam como o resolver. Para quem não resistir à tentação, eis um video amador com uma abordagem que se destaca pela originalidade:

 

 

Só no ano passado se estabeleceu um novo recorde mundial: o tempo mais rápido está agora nos 5,66 segundos. O campeonato mundial está à porta: entre 14 e 16 de outubro, em Banguecoque, Tailândia. Se tiver crianças com idade igual ou inferior a quatro anos, inscreva-as – parece que há imensos bebés que são absolutamente geniais na resolução do cubo mágico. Nas suas mãozinhas, um dos maiores mistérios matemáticos universais até parece uma brincadeira de crianças.

 

Paula Pina

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Ayrton Senna

 

As crianças brincavam pela casa, empurrando-se à vez, dentro de uma caixa de cartão pintado, a cabeça amparada por um par de almofadas de rendinhas, luvas improvisadas, um prato de plástico de piquenique servindo de volante.
– Então, o que querem ser quando forem grandes?
O menino afirmou logo:
– Piloto de Fórmula 1.
Uma menina pensou e respondeu:
– Piloto aviador.
A outra, hesitou, mas disse:
– Piloto de… comboios.
A mais velha deu-lhe um ligeiro encontrão:
-Não é piloto de comboios, é maquinista.
A mais pequenina abanou a cabeça e insistiu:
– Não, é piloto. Quero ser piloto de comboios. Quero ser como ele, só que de comboios.
O seu dedinho espetado apontava para o ecrã da televisão. Na imagem estava Ayrton Senna, que acabara de cortar a meta, sagrando-se campeão do mundo pela primeira vez.

 

 

Velocidade. Emoção. Prazer. Desafio. As cores, a precisão dançada das paragens nas boxes. O rosnar de motores. Reconhecíamos o seu capacete amarelo em qualquer lado, dentro de qualquer carro. Entrava na pista de ar carracundo, rosto fechado, duro. Rugas de preocupação entre os olhos, o peso do mundo sobre os ombros. Raramente sorria, e quando o fazia, o sorriso, maravilhoso, nunca transbordava nos olhos, que se ausentavam, perdidos, etéreos, num ponto infinito. Por vezes, agachava-se e acariciava os pneus do carro, sentindo-lhes a textura e a temperatura, ou tocava no asfalto como quem media a pulsação de uma criatura viva.

 

 

Quando começou a caminhar, conta a mãe, a sua ânsia de rapidez era tal que tropeçava constantemente. Sempre que lhe comprava um gelado, tinha de comprar outro logo a seguir, porque certamente o primeiro iria parar ao chão. Era descoordenado, trapalhão, desengonçado, de lateralidade indefinida, esquerdino provável. Levaram-no ao médico e um neurologista detetou um problema de coordenação motora. Talvez por essa razão, ofereceram-lhe um pequeno kart com um motor de cortador de relva, aos três anos. Aos oito, os pais já nem estranhavam quando o carro desaparecia da garagem. Quando completou dez anos, corria em karts a sério. Brincava com microaviões, réplicas reais, a combustível, montando-os e desmontando-os cuidadosamente, apreendendo os estranhos segredos das suas entranhas mecânicas.

 

 

Fazia as curvas de corpo rígido, muito direito, as pernas e o dorso num ângulo de 90 graus. Curvava por vezes apenas com uma mão, a esquerda, dedos longos entalhados no volante. Problemas de lateralidade? Talvez fosse a sua tendência ambidextra, o facto de ser esquerdino, que o tornava particularmente poderoso ao volante. Descoordenação? Travava com a sensibilidade de um baterista, mudava de marcha, girava o volante, acelerava, controlando minuciosamente cada momento da condução com um ritmo e coordenação de percussionista premiado.

 

 

Aos 14 anos, levava um cronómetro para a pista e, em vez de fazer a volta completa e contar o tempo, Senna dividia o circuito em quatro secções e experimentava novos traçados em cada trecho, colecionando milésimos de segundo. Esses milésimos de segundo somados significavam muito tempo. Manteve o mesmo hábito de caça-milésimos na Fórmula 1. O seu talento inato, a sua ânsia de vencer a todo o custo e a religiosidade evidente, entrechocavam-se com a coragem, o perfecionismo, a persistência, em corridas inteligentes, cerebrais. Recolhia os dados telemétricos todos os dias e estudava-os cuidadosamente. Analisava os resultados dos outros pilotos. Seguia rotina minuciosa e fornecia informações assombrosas aos engenheiros, com um detalhe e rigor de computador: ponto de rotação do motor, problemas de chassis, pressão e temperatura.

 

 

Conhecia o seu carro e testava-o até aos limites do impossível. Ultrapassagens e curvas em sexta, rapidez e segurança em pistas encharcadas, manobras que ficarão na história. Gastava muito mais combustível, pois acelerava mais cedo, travava mais tarde, entrando nas curvas com toques de acelerador. Descobria pontos de ultrapassagem impensáveis. No Mónaco, tinha um apartamento frente à pista de rua. Observava-a da janela. Outras vezes, passeava de bicicleta ou lambreta pelo circuito, para memorizar as curvas e as retas, meticulosamente. “Fazer uma volta perfeita é como dar um nó de gravata em que as duas pontas devem ficar exatamente da mesma altura. A experiência ensina-nos que podemos fazê-lo, o treino também, mas, na realidade, jamais conseguimos.”

 

 

Senna era a estrela dos grandes prémios, bastando a sua presença para fazer subir as audiências. Quando morreu, muitos nunca mais assistiram a corridas de Fórmula 1. Para além do Instituto, com o seu nome, que apoia programas de educação infantil, Ayrton Senna transformou-se em super-herói de revista de quadr(ad)inhos no Brasil, o Senninha, com o seu Capacete Falante, e a inevitável Turma. Merecia melhor. O filme “Senna”, comercializado em DVD em conjunto com a edição de ontem da revista AutoHoje, recebeu o prémio do público World Cinema para Documentário do Festival de Cinema de Sundance, em 2011. Canções, videos, homenagens, há-as um pouco por todo o lado. Mas é mesmo só quando ouço Norberto Lobo a tocar o seu tema “Ayrton Senna”, do álbum “Pata lenta” (Mbari, 2009), que os olhos se me enchem de lágrimas.

 

 

“Canalizo todas as energias para ser o melhor do mundo. Se depender de mim, esgotarei os adjetivos do dicionário.”

“Quero fazer algo de especial. Todos os anos alguém ganha o título. Eu quero ir além disso.”

Fez. Foi.

 

 

dvd “Senna – Sem medo. Sem limites. Sem igual.” (“Senna”), de Asif Kapadia
Universal / AutoHoje, 2010 / 2011

 

Paula Pina

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O mistério do detetive do olho de vidro

 

Foi, sem dúvida, o detetive menos carismático, o menos charmoso e, definitivamente, o mais mal vestido de sempre. Usava uma gabardine velha e deformada, de uma cor perigosamente indigna. Conduzia um Peugeot descapotável, modelo 403, de 1954 (um carro raro, já que só se fabricaram 504 exemplares), mas em péssimo estado de conservação. Fumava com evidente prazer uns charutos deploráveis e parecia sempre ter passado a noite a vasculhar em caixotes de lixo.

Os episódios da série televisiva, apesar de formulaicos, eram quase sempre brilhantes; os assassinos, eram invariavelmente espertos, o que constituía sempre um desafio; os enredos, eram interessantes, no seu estilo “open-book”, com o crime a desenrolar-se à nossa frente, expondo o culpado logo de início. Gostava particularmente daquele momento em que, parecendo desistir da investigação, o detetive voltava atrás subitamente, e, com o seu peculiar jeito atrapalhado e inconveniente, dizia: “just one more thing”. Com essa “one more thing” resolvia geralmente o mistério e apanhava o criminoso.

 

 

Sabemos também muito pouco acerca da vida familiar deste tenente da polícia de Los Angeles, brigada de homicídios, excetuando talvez as referências esporádicas à mulher (que conduz o carro novo) e a um cão. Igualmente deliciosa, a curiosidade bizarra e inesperada relativamente a pequenas coisas sem importância, o que costumava deixar os interlocutores desconcertados. Depois de um interrogatório duro, por exemplo, era capaz de perguntar subitamente: “Quanto pagou por aquela mala? Gostava de oferecer uma à minha mulher…”.

 

 

Não era forte, nem alto, nem musculado, nem atlético. Não era destemido, nem corajoso. Detestava violência e barulho de disparos. Não era jovem e enérgico, nem velho e sábio. Não tinha sequer um ar inteligente, nem um discurso arguto, nem uma voz melíflua, nem uns olhos perscrutadores. Na verdade, o seu olhar enviesado sempre foi fonte de fascínio, assim como a voz rouca e os maneirismos verbais e gestuais.

O olhar enviesado, percebi mais tarde, não era estilo. Aos três anos, uma doença maligna obrigara à remoção cirúrgica de um olho. Passou depois a usar um olho feito de vidro. Esse facto não o impediu de se tornar num líder de turma muito popular e num desportista de sucesso no basquetebol e no beisebol. Estudou literatura e ciência política, tirou um mestrado em administração pública e candidatou-se a um lugar na CIA. Foi esse olho de vidro que impediu o seu recrutamento, já no final da 2ª Guerra Mundial, quando se decidiu alistar. A recusa não o demoveu – alistou-se na marinha mercante, como cozinheiro e copeiro: “Lá eles não se importam se és cego ou não. O único que tem de ver bem no navio é o capitão. E no caso do Titanic, ele também não conseguiu ver lá muito bem…”. Há, aliás, uma história deliciosa, acerca da chegada do jovem copeiro ao camarote, que iria ter de partilhar com um matulão de ar ameaçador. Parece que, quando confrontado com a pergunta acerca de qual o problema físico que lhe impedira o recrutamento, ele se sentou e, calmamente, começou por tirar a ponte dentária que usava, colocando-a sobre a mesinha. Depois, extraiu o olho. Quando começou a fingir que desenroscava uma das pernas, o marinheiro com ar de poucos amigos teve uma súbita necessidade de ir até ao convés apanhar ar…

Tornou-se ator. Devido à sua deficiência física, atribuíam-lhe geralmente papéis menores, mas foi essa mesma deficiência física que o tornou especial, pois é o seu olhar de vidro que recordamos até hoje. A voz também. Vale a pena ouvi-lo como avô narrador, no filme de 1987 “The Princess Bride”. O presente que traz para o neto doente é um livro, o mesmo livro que o seu pai lhe lia quando estava doente, e que antes dele o avô lia ao seu pai, no tempo em que a televisão era feita de… livros.

 

 

Vale a pena revê-lo, o detetive do olho de vidro, ar de vagabundo e astúcia de Sherlock Holmes, a assobiar ou a cantarolar a velha melodia de uma lengalenga infantil inglesa:

This old man, he played one
He played knick-knack on my thumb
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played two
He played knick-knack on my shoe
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played three
He played knick-knack on my knee
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played four
He played knick-knack on my door
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played five
He played knick-knack on my hive
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played six
He played knick-knack on my sticks
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played seven
He played knick-knack up in heaven
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played eight
He played knick-knack on my gate
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played nine
He played knick-knack on my spine
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played ten
He played knick-knack once again
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

 

 

Morreu neste verão, em junho. O ator chamava-se Peter Falk. Nasceu a 16 de setembro de 1927. O detetive chamava-se Columbo.

 

 

Paula Pina

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Woody Woodpecker

Li recentemente um artigo sobre a relação entre programas televisivos e violência infantil e juvenil. Nesse artigo fazia-se um resumo das principais linhas de investigação acerca do tema e debatia-se, sumariamente, o resultado de diversas experiências, conduzidas um pouco por todo o mundo, quer em laboratórios bem apetrechados e por equipas constituídas por cientistas afamados, quer em humildes comunidades esquecidas, lideradas por jovens aspirantes a investigadores. Embora inconclusivo, porque inconclusivos ou discutíveis foram também os relatórios das experiências, o artigo referia, de passagem, um estudo laboratorial em particular, desenvolvido em 1956, com uma amostra de 24 crianças. O grupo foi dividido em dois: 12 crianças visualizaram um episódio de Woody Woodpecker, o famoso Pica-Pau criado em 1940 por Walter Lantz; as outras 12 viram um episódio de “The little red hen” (“A pequena galinha ruiva”).

Ora, se a memória me não atraiçoa, “The little red hen” é uma pequena fábula, de origem russa muito provavelmente, e com intuitos moralizantes óbvios: a galinha pede ajuda a vários animais para plantar o milho, colher, moer e fazer o pão e os bolos, mas todos se recusam, de forma mais ou menos descarada, e recorrendo a desculpas tolas. Claro que, depois do trabalho feito, estão todos prontos para participar do banquete. A galinha recusa-se então a partilhar os resultados do seu esforço e castiga a falta de solidariedade e de ajuda, alimentando orgulhosamente apenas os seus pintainhos. Na versão da Disney, “The wise little hen”, com a presença de um Pato Donald estreante, surge uma mesa coberta de delícias feitas de milho e fabulosas maçarocas (sim, também há uns pontapés, mas nada por aí além…).

 

 

Por outro lado, se bem me lembro, Woody Woodpecker era uma personagem bizarra, de raça indefinida e de sucesso inesperado junto das audiências. Era uma ave de poupa vermelha e corpo azul (variáveis), dona de uma mente tresloucada (sempre) e uma personalidade bem disposta, dotada de uma energia histérica e com um riso absolutamente singular (ainda que com vozes variáveis). Claro que o estereótipo da época se fazia sentir nos gags alucinantes, desde os nomes das restantes personagens à fisicalidade absurda das suas iniciativas, passando pelas paródias e autoreferências.

Curiosamente, o que sempre me fascinou no Woody Woodpecker nada tinha a ver com a violência dos gestos. Nada tinha a ver com a comicidade das situações. O que mais admirava era as maravilhosamente pictóricas e psicadélicas explosões de cor, irradiando do ecrã após explosões, pancadas, choques, entaladelas, apertões, pontapés e outras torturas, em imagens que sempre me pareceram quadros abstratos em movimento; a música, claro, a banda sonora; e a voz estranha, às vezes meio masculina e outras feminina, do Pica-Pau, e o seu inesquecível riso em staccattos diafragmais (que eu secretamente treinava). Relembremos a primeira aparição pública de Woody Woodpecker, em novembro de 1940, num episódio da série “Andy Panda”:

 

 

Depois de ler o artigo, confesso, fiquei um bocadinho apoquentada. Tanta violência televisiva que digerimos na infância, sem qualquer tipo de controlo parental ou escolar, deve ter afetado, senão grave, pelo menos parcialmente, o nosso desenvolvimento cognitivo, psicológico, afectivo, relacional, social. Foram tantas as marteladas a que assisti nessa época, que, certamente, num destes dias, acordarei enfiada num colete de forças. Só desejo que as gargalhadas de loucura que vier a soltar sejam parecidas com as do Woody Woodpecker…

 

dvd’s “As aventuras de Pica-Pau” (“The Woody Woodpecker show”)
Público, 2011
[a partir dos 6 anos]

 

Paula Pina

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Vende-se: Panthermobile

Turum… turum… turumturumturumturumturuuuum… turururum… É um… motor? Não. É uma música!… Damos uma ajuda: qual é a cor qual é ela, de todas as cores a mais bela? Resposta difícil? Mas… e se substituíssemos “bela” por “icónica”? Qual é a cor mais icónica da história do cinema? Qual é a cor que vem acompanhada por um tema musical jazzístico imediatamente reconhecível? Qual é a cor, já agora, que é indissociável de um felino televisivo de gestos vagamente efeminados? Qual é a cor que poucos apreciam num veículo (exceto em veículos de pedal, de duas ou três rodas, e para meninas com idade inferior a oito anos)?

 

 

Cor de rosa! Pois é mesmo cor de rosa, o cor de rosa da série da NBC “Pantera cor de rosa”, o cor de rosa do tema musical de Henry Mancini, um cor de rosa vibrante, radical, psicadélico, único. Único também é o Panthermobile, criado em 1969 por Jay Ohrberg, o mesmo designer lendário de Hollywood que, entre outras extravagâncias automobilísticas, concebeu os Batmobiles do Batman, o DeLorean DMC-12 de Marty McFly (o herói de “Regresso ao futuro”), o K.I.T.T. de Michael Knight, o Ford Gran Torino de Starsky & Hutch, o General Lee dos “The Dukes of Hazzard”, e, claro, os carros da idade da pedra dos Flintstones. No site Pink Panther Car anuncia-se agora o leilão do Panthermobile, pela internet, entre os dias 4 de setembro e 14 de outubro. O veículo, embora sem licença de circulação, está em perfeito estado de conservação, afirmam. Necessita, confessam depois, de pequenas afinações ou reparações (o motor recusa-se a trabalhar, sabe-se lá porquê). 100 mil libras, dizem também, poderá ser o valor atingido.

 

 

É um automóvel desconcertante. É exemplar único. E é cor de rosa. Foi conduzido por uma criança no genérico da série. Qual o adulto que irá acrescentá-lo agora à sua coleção particular de brinquedos? Não sabemos. Mas gostaríamos que nos convidasse um dia para ir brincar com ele. Talvez então, com as portas da luxuosa garagem abertas de par em par, o Panthermobile voltasse a atacar, perdão, voltasse a trabalhar: Turum… turum… turumturumturumturumturuuuum… Turururum…

 

 

Paula Pina

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Agosto: férias, feiras, festas, festivais [2ª parte]

[ 1. ]

 

 

2.

Chegava-se de madrugada, antes do nascer do sol, que é quando a água está “benta”, para a Alvorada e “Banho santo”. No largo, uma confusão de gentes, animais, turistas e “serrenhos”, burgueses da cidade e desportistas do Futebol Clube local. Havia os Caldas de Almeida, os Vilarinho, os Vasconcelos, os Figueiredo de Mascarenhas, os Leite, os Horta Correia, os Oliva e Grade. Havia os Gregório, os Baptista, os Anselmo, os Neves, os Bento, os Figueira, os Machado Guerreiro, os Netto, os Pereira Caldas. Havia os Negrão, os Grave, os Pessanha, os Sequeira, os Palma, os Santos, os Mourinho, os Vicente, os Ventura, os Nogueira, os Domingos, os Viola, os Rosa e os Mealha. Cada grupo parecia saber exatamente qual o seu lugar. Descarregava-se a merenda. Os banhistas despiam-se com o maior recato possível e entravam na água em jejum. “Cada banho vale por nove e cura os reumatismos”. Eram sobretudo jovens, mulheres e crianças. Para o desjejum, meio copinho de aguardente de medronho e umas fatias de pão com chouriço ou uma fatia de bolo e fruta. Os mais velhos agarravam nas canas de pesca e afastavam-se, para irem “pescar ali um pexinho”. Alguns iam ajudar a varar os barcos acabados de chegar e assistir à lota. As mulheres, ou ficavam vestidas e entravam na água só até aos joelhos, perseguindo as crianças, ou usavam uns imensos fatos de banho, que as cobriam quase até aos joelhos. As mais jovens e ousadas, arriscavam um biquini, mas com uma toalha pelos ombros e um grande chapéu, sempre sob a atenta vigilância das mães. Havia lutas e mergulhos impiedosos, lábios roxos e lágrimas, mas pronto, ficávamos abençoados e livres de muitos males. De vez em quando, no meio de grande chinfrineira, arrastava-se até a um rochedo um animal, ou um pequeno rebanho de cabras e ovelhas, e os bichos eram relutantemente aspergidos com a água do mar, tirada de dentro de um balde.

Depois abriam-se os cestos e merendava-se na praia. Bebíamos “pirolitos”  (bebida gaseificada, fechada pela pressão de um berlinde, que comprávamos com orgulhosas notas de 20 escudos e cujo troco nos duraria para o resto do ano). Comíamos batata doce. Quando tínhamos sede, bebíamos à vez, por um único “cucharro” de cortiça, a água ainda fresca do cântaro. Os mais literatos partilhavam o Jornal do Algarve. Os mais artísticos, faziam esboços do Castelinho, dos chalês, dos Caldas e Vasconcelos, e do Mascarenhas Gregório. Alguns dormiam “a folga” à tarde. Toldos? Só uma vintena deles, armados de manhã pelo Sr. Bento, que lhes  mudava a inclinação à tarde, os armava na vertical nos dias de vento forte, e amorosamente os fechava ao entardecer. Proteção solar? Camadas grossas de creme Nivea, embalagem redonda e azul, e só nas zonas mais expostas.

Mais tarde, depois de lavagem ligeira obrigatória, mas muito amuada, num alguidar, mudava-se de roupa e os mais devotos iam à missa. O ponto alto era a procissão, por terra e por mar. Pelas ruas, seguíamos o andor com a Nossa Senhora, todo enfeitado de flores e chita, e folhas de palmeira, vindas dos chalés da terra. Abrindo o cortejo, três gaiatos “mascarados” de monges, como dizíamos, não sem alguma inveja, para gáudio de uns e despeito de outros. Os pescadores, com as suas embarcações engalanadas (lanchas, traineiras, canoas de vela árabe e botes de espicha), apinhadas com dezenas de famílias, seguiam-nos por mar. O percurso acabava na Fortaleza, onde o senhor prior, depois do sermão, rezava o terço. Pagavam-se promessas, com velas e azeite, e havia a quermesse, sempre muito concorrida.

O arraial começava com a atuação da banda filarmónica, num coreto montado no areal. Na feira, vendia-se de tudo: louças de barro, azulejos, pucarinhas de metal, miniaturas de casas, utensílios agrícolas, mantas e almofadas de retalhos, colchas e rendas de bilros, cestaria, roupas e joias. Cheirava a polvo assado. Comia-se: caldeirada de marisco, caracóis, sardinhas albardadas, carapaus alimados, moreia frita, papas de milho e fatias do Barrocal. Bailava-se ao som do acordeão e da concertina, das guitarras e da harmónica, eles um pouco tontos, elas muito tímidas. À medida que as crianças iam, uma a uma, tombando de sono, de novo alguém as embrulhava e acumulava numa das carroças. Só no final, o fogo de artifício, lançado do areal e dos barcos, as fazia levantar, pestanas salgadas, pesadas de sono, marcas de baba nos cantinhos dos lábios, vincos nas bochechas, penteados desfeitos. Nas suas pupilas, os reflexos das luzes multicolores subindo bem alto e desfazendo-se na noite.

Assim era, como nos lembramos, a festa em honra de Nossa Senhora, amparo dos marinheiros e pescadores, protegendo-os das tempestades, naufrágios, monstros e piratas, nos rios e no mar.

 

Paula Pina

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Agosto: férias, feiras, festas, festivais [1ª parte]

Agosto é tempo de férias. Agosto é tempo das festas: dos festivais da moda às romarias ancestrais, das celebrações anuais, sazonais, patronais, às feiras mais ou menos medievais. Das bandas da rádio aos duos de karaoke, dos artistas da televisão aos que têm muito sucesso lá fora. Um pouco por todo o lado, das aldeias esquecidas nos mapas mais atualizados (sobretudo nesses e nos GPS), às recentemente promovidas vilas e cidades, das sociedades, associações filarmónicas, recreativas, grupos desportivos, culturais e religiosos, há-as para todas as bolsas e para todos os gostos, com ou sem fogo de artifício (geralmente com).

 

1.

Os preparativos começavam alguns dias antes. As mulheres amassavam e coziam o pão nos fornos de lenha. Matavam umas galinhas, que assavam no final, aproveitando as últimas brasas. Faziam as filhoses e os bolos tradicionais – bolo de mel e erva doce, bolo de figo, bolo de alfarroba, bolo de amêndoa e gila. Os morgados, as lesmas, os folhados e os dom rodrigos eram feitos exclusivamente pelas mulheres mais velhas, seguindo secretas receitas ancestrais. De vez em quando, uma das jovens casadoiras era convidada a participar no ritual da confeção. As outras, invejosas, espreitavam pelo postigo de madeira da cozinha e tentavam decorar os movimentos, dançantes, firmes, ritmados das mãos preparando as massas e recheios delicados. Os miúdos, depressa enfastiados dos jogos habituais, dos livros lidos e relidos (Patinhas, Mónica e Cebolinha com fartura, “Os cinco”, “A aventura”, um ou outro “Astérix” e “Tintin”) e ressentidos pela falta de atenção, arriscavam, de quando em vez, uma corrida rápida até à cozinha, metendo os dedos sujos de terra na massa das formas, e encolhendo-se à esperada palmada e à coadjuvante exclamação: “- Ai, miúdo d’um raio!”. As meninas, mas só as mais bem comportadas, teriam o direito de lamber as colheres de pau e de raspar os restos da massa dos tabuleiros, antes de voltarem a investir nas fatiotas de crochê para as bonecas  (as “matrafonas”), nos modelitos de papel  para as bonecas de cartão, ou nas leituras da “Anita” ou de volumes da Condessa de Ségur integrados na coleção azul ou cor de rosa.

Os homens iam à adega e das pipas deixavam jorrar o vinho, da cooperativa, para dentro de garrafões envoltos em vime, que rolhavam rápida e eficazmente com as rolhas da fábrica de cortiça local. Limpavam e alimentavam os animais, demorando-se a escovar e a entrançar as crinas dos cavalos e da mula. Lembro-me de uma velha égua branca e cinzenta (a Centenária), a espinha excessivamente curvada, que se enchia de ar sempre que a selavam. E lembro-me da mula, que era a Mula, e de um burrico cinzento, o Bom Remédio, que carregava as infusas (cântaros de barro) e as caixas da fruta.

As primas adolescentes, de mini saia e longas tranças, guardavam nas malinhas os rosários, os véus e as velas para a missa e procissão. Entre cochichos, troca de revistas femininas (Cláudia, Crónica   Feminina, Modes et Travaux), bordados e conselhos de estética, de vez em quando, uma carta com selos exóticos ou uma pequena Foto Custódio era retirada de entre as páginas de um romance para raparigas (geralmente da série “Brigitte” ou um qualquer título de Odette de Saint-Maurice) e comentada pelas outras. Depois, pressurosas, vinham ajudar as crianças a recortar as flores de papel com que iríamos enfeitar as carroças. Ou melhor, como sempre me fizeram questão de explicar, as carretas (para a lenha, para o  vinho e para o “bicho”, que nunca percebemos bem o que seria…), as carroças (para as famílias e crianças) e a caleche (certamente porque tinha toldo, para as grávidas, bebés e para a bisavó).

Ao entardecer, as mulheres embrulhavam o pão, os chouriços, o presunto, os bolos, em panos axadrezados, de cornucópias ou com galos de Barcelos meio desbotados. Empilhavam panelas, copos, tigelas, pratos e travessas de esmalte pintado dentro de grandes cestos de verga. Os homens traziam das hortas os melões e as melancias, e enchiam uns cabazes com laranjas, tangeras, tangerinas e clementinas, figos, pêssegos e uvas. Sentavam-se depois em roda, nos alpendres ou à porta da rua, amolando as facas, faquinhas e canivetes, uns; enrolando tabaco, outros: os mais pequeninos tiravam as suaves folhinhas de papel, à vez, e também à vez lambiam os bordos. Os mais crescidos eram autorizados a cortar os cigarros. De vez em quando, um dos primos mais velhos fazia desaparecer uma rosquinha de vício, que fumava às escondidas, com a anuência do avô, que se distraía de propósito, não reparando no desaparecimento. Um dos tios, fingia que afinava a viola e o bandolim, e ensaiava só para si as modinhas, apanhadas de ouvido da rádio, orelha inclinada para a caixa e dedos calejados amaciando as cordas. Os que se diziam pescadores preparavam cientificamente o equipamento.

Assim que a noite caía, e os mais pequenos adormeciam, eram agasalhados e deitados, meio embrulhados em mantas feitas de retalhos, no fundo das carroças. Uma das carroças era maravilhosa: rodas e raios amarelos, e depois dividia-se em contrastes de azul, vermelho e verde de madeira pintada. Tinha assentos corridos dispostos dos dois lados. Famílias inteiras metiam-se à estrada, as candeias de petróleo alumiando os caminhos ladeados de valados de pedras instáveis. De vez em quando, coelhos e zorras (raposas) atravessavam-se à nossa frente. Contavam-se anedotas (algumas bastante impróprias), adivinhas e histórias, como a do Esconderijo do Remexido, e lendas de mouros. A noite cheirava a alecrim, a rosmaninho, a orégão. Outras vezes, a bela-luisa, a urze e erva-azeda. As rodas esmagavam o solo xistoso, em algumas zonas coberto de seixos rebolados, num chiar oleoso. As grandes copas das alfarrobeiras pareciam castelos e, nas suas dramáticas ondulações dos ramos e folhas, as figueiras pareciam monstros prestes a levantar-se do chão. O casario branco, caiado e brilhante do dia, tornava-se fantasmagórico. Ao passarmos por portões, alguns cães saíam-nos ao caminho, cumpridores, todos rosnadelas e dentuças fluorescentes. Por vezes, passávamos por um tanque de rega, onde se banhava a mais gloriosa lua do sul.

 

[continua na próxima 6ª feira, 26 de agosto]

 

Paula Pina

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Maratona e juventude

Hoje, dia 12 de agosto, comemora-se o Dia Internacional da Juventude, uma proposta nascida na Conferência Mundial de Ministros Responsáveis pela Juventude, realizada em Lisboa, precisamente de 8 a 12 de agosto de 1998, ano da Expo.

No Dicionário da Academia das Ciências, “juventude” é a última entrada na letra J. Aí podemos ler, entre outras, esta definição: “Juventude: conjunto de atributos próprios dos jovens, que podem manter-se nos adultos.”

Também num dia 12 de agosto, desta vez de 1984, um atleta português, Carlos Lopes, conquistou, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, a primeira medalha de ouro para Portugal. Coladas ao pequeno ecrã do televisor, ainda a preto a branco, e um dos poucos na aldeia da serra algarvia, gerações inteiras de famílias em férias ou em pausa de trabalho no campo, ouviam o relato entusiástico do locutor. As imagens, essas, ficaram gravadas numa cassete beta, de dois lados, e já em muito mau estado, que foi passando de casa em casa, de mão em mão, desde os primos emigrantes ao tio-avô semi-adormecido no quarto dos fundos.

Foi uma maratona rapidíssima, recorde mundial, sob o sol abrasador da Califórnia. A camisola, com o número 723, parecia grande demais para o corpo magro de Carlos Lopes. Tinha quase 40 anos.

 


 

Paula Pina

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