Monthly Archives: July 2011

Filoclora, Criatura #002

Vivo em recantos de jardins, em pátios abandonados, em quintais desalinhados, em pracetas esquecidas pelos (vossos) senhores vereadores. Muitas vezes, precisamente porque há por aí muita gente (da vossa) que pensa que os jardins onde crescem ervas e arbustos em selvagem liberdade não merecem respeito, atiram para cima de mim toda a espécie de lixo. Por isso, sou obrigada a usar um chapéu. Na verdade, é um chapéu-estufa, que me protege e mantém regular a temperatura das ervas maravilhosas que crescem na minha cabeça, na minha cabelerva.


Já me criticaram pelo “naperon ridículo” que me ornamenta os lábios. Passo a explicar: a minha boca absorve tudo o que é inútil, tudo o que se deita fora. Por isso, é mais do que uma simples boca: é um verdadeiro sistema de limpeza. Não é maquilhagem, não é decoração, não é adereço. É um filtro. Tudo o que entra em mim transforma-se, e volta a sair, reciclado, em arbustos e erva, em oxigénio e vento. Aliás, uma das grandes vantagens da minha existência é a possibilidade de me incorporarem no vosso sistema diário de limpeza pessoal de maus sentimentos, de palavras feias, de atos desagradáveis.

Tenho também dois olhos-copo, com os quais vejo (na verdade, vejo sempre tudo), mas que utilizo sobretudo para fazer a recolha de água, ou melhor, daquela água que ninguém mais quer: das frescas gotas de orvalho matinal às gotículas de suor por cima do lábio superior dos meninos que jogam à bola, dos salpicos de lama dos automóveis aos esguichos dos repuxos mal direcionados, das pingas que escorrem das penas das asas dos passarinhos que se banham nas poças do passeio, às lágrimas da senhora idosa que viu partir a neta para o estrangeiro.

Perguntam-me muitas vezes por que é que tenho um olho negro. Na verdade, isso só significa que quem olha para mim não me olha realmente. Se repararem, à noite, quando está frio, quando o céu está escuro, aterrorizado de tempestades, quando acontecem coisas tristes ou coisas que não entendemos, quando alguém fica magoado, quando só vos apetece ficar encolhidos, sossegados, escondidos num buraco, o meu olho direito escurece logo. Pelo contrário, quando o sol brilha e pelo ar passam aragens repentinas e mágicas, e tudo se movimenta, quando esvoaçam aves e crianças, quando as nuvens passam ligeiras buscando outras nuvens ao longe, quando as pessoas assobiam e cheira a pão quentinho, quando o menino e o avô param para ver um carreiro de formigas, o meu olho direito ilumina-se. E em cada um dos meus olhos está o seu oposto, ciclicamente, branco e negro.

Sou rápida, voo para todo o lado, e em todo o lado fico bem. Podem chamar-me sempre que ficarem com o coração nas mãos, quando vos cair o coração aos pés, quando tiverem de fazer das tripas coração. Posso abanar-vos com o meu coração de leque, limpar-vos do susto ou desgosto, fazer-vos uma tisana reconfortante com as ervas que trago na cabeça. Peço-vos que me chamem, de preferência, antes de ficarem com um coração duro como pedra. Outra coisa muito importante: quem vê a minha cara, verá o meu coração.

O quê? Como? Ah, estão agora a dizer-me que há muitas pessoas que não sabem o meu nome… Sou uma filoclorokapelecefalo-hidrocriotermotaquinanofagoscópia, mas podem tratar-me por Filoclora.

 

 

Paula Pina, a partir de uma ilustração de Cesária Martins

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“A crocodila mandona” e “O país das pessoas de pernas para o ar”, da Tcharan

 

Dois livros inauguram uma nova editora, a Tcharan, da ilustradora Marta Madureira e da escritora Adélia Carvalho. “A crocodila mandona”, primeiro trabalho da dupla neste contexto (depois de se terem cruzado no “Livro dos medos”, publicado pela Trampolim em 2009), mereceu uma Menção Especial no Prémio Nacional de Ilustração 2010, da Direção Geral do Livro e das Bibliotecas. Percebe-se por que razão. O texto em verso encaixa-se no âmbito das lengalengas e histórias acumulativas rimadas, típicas do universo popular de tradição oral, ou, se quisermos, pode ser uma espécie de jogo atualizado do “Bom barqueiro” (“Linda falua”, para outros), em que a teatralidade dos diálogos curtos e incisivos entre as diversas personagens que vão surgindo ecoam outras histórias, como “O coelhinho branco e a formiga rabiga”, por exemplo. Se este texto, enquanto reescrita da tradição, funciona como exercício de memorização ou jogo de expressão dramática, oferece-se, nas páginas finais, também como proposta didática, convidando à criação de novas personagens e novas rimas, nas modalidades escrita e desenho.

Quanto a “O país das pessoas de pernas para o ar”, é uma reedição de um texto de 1973, de um autor consagrado, Manuel António Pina. É delicioso reler este Manuel António Pina, que aqui, descarado, nos alimenta com colheradas cheias de doce humor, roçando o nonsense, brincando com as palavras, com as personificações, com as escolhas dos nomes das personagens, com o excesso de copulativas, com as repetições, com as frases, em sintáticos desarranjos, construindo “childlike styled narratives”.

 

“Uma vez a Sara tinha um passarinho. O passarinho chamava-se Fausto. Era branco e amarelo e chamava-se Fausto. O nome dele era Fausto.”

 

São quatro as histórias: “O país das pessoas de pernas para o ar”, a primeira, seguindo-se “A vida de um peixinho vermelho”. Depois, duas pequenas narrativas tendo o menino Jesus como protagonista: “O menino Jesus não quer ser Deus” e “O bolo do Menino Jesus”. Quem conhece as histórias que as crianças inventam e escrevem, não consegue evitar um sorriso. E, pensando no que se escrevia e se publicava para crianças no início dos anos 70, compreendem-se melhor as ousadias de Manuel António Pina:

 

“Um bolo estava na montra da pastelaria, todo coberto de açúcar. O menino Jesus ia a passar, levado pela mão por S. José e aquele bolo pensou:

– Queria que este menino me comesse. Ele é Deus, queria que ele me comesse com a boca dele. Ia para dentro dele, e depois ia para o estômago dele; e depois ele fazia a digestão, e eu ia para o sangue dele, ficava para sempre dentro do sangue dele. Transformava-me no sangue do menino Jesus e andava dum lado para o outro dentro do corpo do menino Jesus. Com um bocadinho de sorte, talvez até aparecesse na chaga do lado.

Aquele bolo pensou estas coisas, como seria bom o menino Jesus comê-lo, e ficou triste.”

 

Ousadias também as da ilustradora, que recorrendo a técnicas mistas nos surpreende com o seu sentido de equilíbrio gráfico entre texto e imagem, nos encanta com o cuidado nos detalhes, com a subtileza do seu humor e plena compreensão do texto.

Uma entrada “tcharan!” para a Tcharan.

 

livro “A crocodila mandona”, de Adélia Carvalho com ilustrações de Marta Madureira

Tcharan, 2010

[a partir dos 4 anos]

 

 

livro “O país das pessoas de pernas para o ar”, de Manuel António Pina com ilustrações de Marta Madureira

Tcharan, 2011

[a partir dos 5 anos]

 

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

Alexandre Dumas e o romance de aventuras

Os melhores amigos são
Os três Moscãoteiros
Quando em aventuras vão,
são sempre os primeiros…

 

A musiquinha já está a tocar na cabeça? Já se lembram das personagens? Já lhes ouvem as vozes?

(…)

Apercebi-me recentemente que há crianças, da geração das consolas sofisticadas, que brincam aos índios e cowboys, embora nunca tenham lido um western ou visto uma única aventura de capa e espada. Quem cresceu com os romances de aventuras portugueses lembrar-se-á do Capitão Morgan, que, a partir de Emilio Salgari, nas versões da Romano Torres, enche de terror os navios espanhóis e se comporta como um verdadeiro cavalheiro, em vigorosos ajustes de contas com os grandes, com os injustos, com os poderosos. Dos anos 40, herdámos ainda “Les trois Mousquetaires”, na tradução de 1851, e “Le Comte de Monte-Cristo”, de 1845, ambos de Alexandre Dumas (pai). E quem se lembra dos despojos paternos das coleções dos anos 60, dos livrinhos de índios e cowboys dos pais, em versões cada vez mais fininhas?

 

 

Escreve Eça de Queiroz nas suas “Notas contemporâneas” (Ed. Livros do Brasil, s.d., p. 188), a propósito do declínio do naturalismo: “A simpatia, o favor, vão todos para o romance de imaginação, de psicologia sentimental ou humorista, de ressurreição arqueológica (e pré-histórica!) e até de capa e espada, com maravilhosos imbróglios, como nos robustos tempos de D’Artagnan.” Mas o mesmo Eça coloca um volume escrito por Dumas à cabeceira de Ega em “Os Maias”. E Camilo, no prólogo de “A caveira”, em “Cenas contemporâneas”, ironiza sobre a “mentira no romance”.

A inexorável ascensão do cinema e da televisão, com as suas séries para os mais novos, fez esquecer Alexandre Dumas, galã, aventureiro, viajante, escritor, criador de uma das mais eficientes oficinas de escrita, que enchia de interesse os rodapés das revistas parisienses. Dumas vive nos desenhos animados que viram todos aqueles que nunca leram Dumas (e cuja banda sonora, muito provavelmente, não irão conseguir tirar da cabeça durante o resto do dia, depois de lerem este post). Dumas vive, ainda, na imaginação destas crianças que hoje brincam e que também nunca o leram. Talvez o leiam, um dia, desejamos nós.

 

Quando eles vão combater
Já não há rival algum
O seu lema é um por todos
E todos por um…

 

 

 

 
Paula Pina

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Filed under Literatura, Ram Ram, Televisão

“Super 8”, de J. J. Abrams

Abençoada seja a juventude que habita ainda filmes como o esplendoroso “The tree of life” (“A árvore da vida”, de Terrence Malick, milagre central no corrente ano cinematográfico, com uma surpreendente carreira de bilheteira que – um par de meses cumpridos sobre a sua chegada ao circuito local – ainda o mantém em exibição num número assinalável de salas) ou como “Super 8”, vibrante celebração do exponencial onírico do cinema juvenil que hoje, 28 de julho, invade e domina com total mérito a agenda de estreias deste verão. Prodigiosa na sua noção de humanidade e no respeito mais intransigente pela narrativa e pelas emoções das personagens, sem jamais abdicar de uma empolgante destreza técnica e de estilo, esta é a oferenda de amor que o realizador J. J. Abrams (criador de “Lost” e diretor de “Cloverfield” ou de “Star Trek”) dedica a Steven Spielberg, seu inequívoco referencial, encarregue das virtudes da produção e da inspiração que brilha tacitamente em muitos dos mais memoráveis momentos deste “Super 8” – nostalgia e fantasia subtraída essencialmente à obra-prima “Close encounters of the third kind” (“Encontros imediatos do terceiro grau”, 1977) e a “E.T. – The extra-terrestrial” (“E.T. – O extraterrestre”, 1982), mas também a “War of the worlds” (“Guerra dos mundos”, 2005) e, de certo modo, a “A.I. – Artificial intelligence” (“Inteligência artificial”, 2001). Promessa de tantos encontros imediatos de primeiro, segundo e terceiro grau de parentesco, capaz de anular estrategicamente simbólicas distâncias geracionais, nivelando-as pelos mais distintos padrões desta escola americana da transição das décadas de 70 para 80 (não por acaso, a história decorre em 1979…), ainda com um imenso orgulho no que o cinema pode dar ao mundo moderno, ou seja, arte e entretenimento, pedagogia e sonho.

 

 

28 julho [estreia nacional]
filme “Super 8” (“Super 8”), de J. J. Abrams, com Joel Courtney, Kyle Chandler,…
[a partir dos 12 anos]

 

Moreno Fieschi

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 6)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infanto-juvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 
Cria Cria: Tem pesadelos com as suas ilustrações? E sonhos bons? Os seus momentos de criação são, por norma, felizes? Ou são difíceis?

Marta Madureira: Sonho muito. Tanto, que acordo cansada. Tenho sonhos muito bons e sonhos maus. Mas por norma são epifanias minhas, separadas das preocupações reais. Não me lembro sequer de sonhar com trabalhos de ilustração que tenha em mãos, e estaria a mentir se dissesse que aproveito esse meu imaginário para ilustrar. Não acontece, pelo menos, de forma consciente. O que acontece, sim, é que cada projeto em que estou envolvida se transforma numa espécie de realidade paralela. O tal “entrar” no texto de que falava na semana passada é exatamente isso, entrar num ambiente de sonho em que o tema é o texto. E quando entramos nessa ilusão, começamos a viver à sua medida, com as suas regras. É quase comparável à ideia de um filme, que por norma acaba bem, mas tem também os seus momentos de dificuldade. E é aqui que respondo à segunda parte da questão: os meus momentos de criação são um misto entre ansiedades e satisfação. Quando recebo um trabalho, o primeiro contacto é de satisfação: “que bom, que texto perfeito, tantas ideias!” Esta fase, diga-se, é muito breve. Uma segunda fase, bem mais lenta, é quando passo das ideias para o visível. Esta fase é de muito esforço. E, penso que por isso, faço sempre grande resistência para a começar. O primeiro desenho é continuamente medonho, acho-me a pior ilustradora do mundo e penso sempre: “no que me fui meter?” Faço dezenas de versões da mesma ideia, sempre perdida e sem saber por onde recomeçar. Só depois de muito insistir é que aparece o “clique”. O “clique” é um momento especial. É também o bilhete para a terceira fase, de puro proveito e bem estar. É quando me ambiento ao texto e passo a viver dentro dele. É neste momento que acontece todo o resultado final no livro. O “clique” não aparece necessariamente na primeira ilustração. Acontece de repente, quando já estou esgotada e quando menos espero. Depois do “clique” tudo se torna claro. É a parte boa. Tão boa, que continua a valer a pena começar de novo. Este percurso faseado em emoções acontece sempre, desde que me lembro. A diferença é que, com a idade e com a experiência, consigo passar por ele de forma mais serena.

 

ilustração originalmente publicada no “Livro dos medos” (Trampolim, 2009)

 

Marta Madureira: Escolhi este livro porque acho que responde, de alguma forma, às perguntas desta semana, nomeadamente nas soluções visuais. É um livro que tem um texto belíssimo da Adélia Carvalho sobre sonhos que são pesadelos e é um livro que ensina a transformar os pesadelos em sonhos hilariantes. Ilustrá-lo foi ter o privilégio de conviver com monstros excêntricos em danças únicas de “entra pela gaveta e sai pela janela”. O próprio texto já é, por si, muito visual e as ilustrações tentam acompanhá-lo através do non sense próprio dos sonhos.

Em todos os livros que fiz até hoje consigo identificar a ilustração que fez o “clique”, a que deu mote a todas as outras. Neste trabalho, o primeiro “clique” aconteceu nesta imagem, depois de muita luta, na quarta ilustração do livro e na oitava versão deste bicho papão. Nada melhor do que entrar nesta parte do sonho para conhecer em primeira mão o bicho papão que adora cantar e comer sabão. Com tanta aptidão para a cantoria, só poderia estar no banho a transformar a música em bolinhas de sabão.

Este livro é direcionado para o público infantil e tem-nos trazido, a mim e à Adélia, surpresas muito engraçadas. Que as crianças veem coisas que a maioria dos adultos não vê, já não é novidade. Mas elas também acrescentam, na sua leitura, significados extra. Em conversa com algumas dessas crianças, uma perguntava: “e por que é que o monstro tem uma torneira na barriga?” E a resposta pronta de outra foi: “não vês que é o sítio por onde o bicho papão faz xixi!?” Mas é claro, como é que não me lembrei disso?!

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Filed under Ilustração

“4”, de Beyoncé

capa beyonce 4

 

O quarto álbum a solo de Beyoncé Knowles não representa uma total continuidade em relação aos anteriores, mas antes um renascer pela tomada de alguns riscos cuidadosamente equilibrados no poderio vocal e criativo da artista – inseparável da sua presença e reconhecível ao ponto de apagar qualquer erro fátuo. Na sonoridade, sente-se um misto de influências do r&b de outros tempos, entre os ritmos dos blues tradicionais e dos intrépidos anos 80. Completa e rigorosa, Beyoncé participou no processo de Continue reading

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Filed under Música

Alexander Calder

Os olhos do bebé movimentam-se, seguindo as formas coloridas suspensas, que se agitam em leves desordens de brisa, tranquilamente, brincando com reflexos e sombras. Magia, decerto. Engenharia, sem dúvida. Uma agitação de pernas e braços e o berço mexe-se, as formas suspensas reagem, interagem. Peso e leveza equilibram-se, mistério e vibração.

Os mobiles e stabiles inspirados na obra de Alexander Calder, cujos princípios nos deslumbram e estimulam visualmente o pequenito deitado no berço, são exemplos de experiências de sucesso na dinamização da plástica. O equilíbrio, base do seu trabalho criativo, é, ao mesmo tempo, estático e dinâmico. Estruturas e corpos de metal, de madeira, de plástico, lâminas e arames grosseiros, bizarras engenhocas, surgem, animados, literalmente, ganhando vida, vitalidade, alma.

 

 

Filho de pai escultor e mãe pintora, o americano Alexander Calder (que nasceu há 113 anos, a 22 de julho de 1898, e viria a falecer no dia 11 de dezembro de 1976), cresceu rodeado de obras de arte, teve o seu próprio estúdio desde criança, onde construía os seus brinquedos, e tornou-se engenheiro: “Acho que esta era a única profissão da qual tinha ouvido falar, para além da profissão de ‘artista’, claro, e eu gosto de mecânica”, escreveria Calder mais tarde. Por exemplo, a prenda que o pequeno Alexander ofereceu aos pais no Natal de 1909 foi um cão e um pato moldados em folha de metal. O pato movimentava-se, diligente, balançando para a frente e para trás quando empurrado. Por outro lado, os seus registos académicos revelam-no um estudante brilhante em desenho mecânico, geometria descritiva, práticas laboratoriais de engenharia mecânica, e cinética aplicada.

 

 

Física e cinética, hidráulica e mecânica, dominaram a formação inicial de Calder. Aliás, uma amiga, Elizabeth Hawes, afirmou, em 1928: “Calder teve de passar muito tempo a descobrir que não era um engenheiro”. Trabalhou como engenheiro hidráulico, mecânico de automóveis, vigilante, e bombeiro na sala da caldeira de um navio. E foi durante esta viagem, ao largo da costa da Guatemala, a bordo de um navio de passageiros que fazia a ligação entre Nova Iorque e São Francisco via Canal do Panamá, numa manhã de mar calmo, que Calder viu o princípio de um “nascer do sol vibrante de um lado e, do outro, a lua, parecendo uma moeda de prata”. “Sempre senti que não havia melhor modelo para mim do que o Universo”, escreveu Calder em 1951, no Museum of Modern Art Bulletin.

 

 

Calder foi capaz de combinar, numa visão artística original, os conhecimentos como engenheiro com os dotes de criador, aliando uma formação para as artes precoce e familiar, com a sua curiosidade acerca da vanguarda cultural do seu tempo. Um dos seus trabalhos mais famosos, exposto em 1927 em Paris, no Salão dos Humoristas, foi o “Cirque Calder”, um circo miniatura desmontável, com bonecos animados, artistas, animais, e objetos, feitos de arame, pele, tecido e outros materiais de desperdício, pensado para ser manipulado pelo próprio artista nas suas digressões performativas.

 

 

Os interesses alargados levam-no a criar joias, mobiles para arquitetura, esculturas ao ar livre, cenários para teatro e bailado (para Martha Graham e Eric Satie, por exemplo), personagens de estuque, pinturas esquemáticas. Os contactos com o meio artístico parisiense, em particular com Marcel Duchamp, Joan Miró, Fernand Léger e Piet Mondrian, serão decisivos. “Um choque, que fez despoletar as coisas”, para usar as palavras de Calder, foi uma visita ao ateliê de Piet Mondrian, mais especificamente, a visão de uma imensa parede branca, coberta de retângulos de cartão colorido, que Mondrian usava para estudar as suas composições.

 

 

No âmbito da arte cinética, redimensionada por Calder, continuam a surgir trabalhos maravilhosos, que nos interessam muitíssimo porque conferem seriedade estética a investigações neuroestéticas e psicocognitivistas, e aos estudos sobre perceção dinâmica infantil, aos quais se juntam elementos tecnológicos.

 

 

E voltamos ao mobile suspenso sobre o berço. Pura delícia visual. Cálculo. Intuição. Metafísica. Descrição analítica. Imagética cósmica. Domínio dos princípios da física. Variação, vetor, forma, densidade, espaço, temperatura, volume, ângulo, massa, movimento, tempo, reação, toque, direção, velocidade, aceleração, energia, tamanho, cor, pintura,… Diálogo vivo com o ambiente, reagindo, interagindo, meio matéria, meio vida, mecânica e humanamente. Perpétuo recomeço.

 

Paula Pina

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Filed under Artes plásticas, Ram Ram

“O livro das caras”, de Claire Didier com ilustrações de Beppe Giacobbe

“Quem vê caras não vê corações”? “O rosto é o espelho da alma”? Não é essa a opinião de Caradepau, o guia de “O livro das caras”, de Claire Didier e do premiado Beppe Giacobbe, publicado pela Edicare. Sim, Caradepau é um colecionador e este é o passeio estonteante à sua galeria privada, surpreendente e provocadora. Dividido em cinco secções, e resultante de um notável trabalho colaborativo e gráfico, são centenas as caras, as cabeças, os cérebros, as barbas e os penteados, os adereços e as máscaras que perante nós se pavoneiam em retratos, fotografias, colagens, pinturas e desenhos, percorrendo, sem preconceitos, a ciência e a história da arte, do mundo, e do homem.

Das ressonâncias magnéticas aos jogos, às histórias e curiosidades, dos artistas canónicos aos mais ousados e vanguardistas, dos retratos solenes e sofisticados às fotografias lá de casa, encontramos aqui um impressionante caleidoscópio de estilos, épocas, géneros, modas, geografias, materiais, propostas, questões, informações técnico-científicas, catálogos e imagens, muitas imagens. Na verdade, um repertório tão completo e inteligente quanto divertido, lúdico e interativo, para manipular, para ler, para descobrir a pouco e pouco, sozinhos ou em conjunto, pequenos e grandes. Temos os factos e os conceitos, as imagens e as homenagens, a curiosidade e a diversidade, a aparência e a excentricidade, mas também a emoção, mas também o sonho. Como afirma Joana, de 4 anos, “o sonho vem pela cabeça”. Se encontramos aqui a resposta a muitos “porquês”, muitos mais “porquês” nos vêm à cabeça.

Não, este “O livro das caras”, não nos deixou com cara de parvos, a coçar a cabeça, sem saber para onde a virar. Pelo contrário. Por que é que não começam já a criar o vosso próprio livro de caras? Talvez começar pelo vosso Facebook? Foi só uma ideia que nos veio à cabeça…

 

livro “O livro das caras”, de Claire Didier com ilustrações de Beppe Giacobbe
Edicare, 2010
[a partir dos 7 anos]

 

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 5)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infanto-juvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: Como é que faz para se lembrar de coisas que ainda não existem? Como é que trabalha a imaginação?

Marta Madureira: A definição de ilustração é ainda hoje pouco esclarecida, porque ao longo dos tempos foi tendo diferentes funções. Num primeiro estado, a ilustração cumpria a função de cópia do real. O aparecimento da fotografia, que oferece de forma mais eficaz o que a primeira tentava fazer até aí, proporciona à ilustração novas perspetivas, direcionando-a para abordagens menos realistas e progressivamente simbólicas. A ilustração distingue-se de outras manifestações visuais pelo facto de estar associada à interpretação de um tema, na maior parte dos casos, de um texto. Essa relação com o texto, mais do que física é semântica: a ilustração descodifica o texto através de artefactos visuais, mas, mais do que isso, redimensiona-o. Assim, a prática da ilustração não é a mera transposição do texto para um suporte imagético, mas uma forma de tradução do mesmo. A ilustração, como eu a entendo, parte do real, mas trabalha sobretudo com o irreal. Acho até que é esse o ponto essencial que me faz gostar tanto de ilustrar. Enquanto professora (dou aulas de ilustração a alunos de licenciatura e mestrado no IPCA – Instituto Politécnico do Cávado e do Ave), o maior desafio das primeiras aulas é fazer com que os alunos percebam a ilustração como uma libertação visual e não como submissão ao que já existe. É tentar estimulá-los para a vasta possibilidade de criarmos o nosso próprio imaginário. E a experiência diz-me que só quando um aluno entende esta perspetiva é que começa a gostar, a empenhar-se e a descobrir a verdadeira expressividade da ilustração.

A imaginação existe em cada um de nós de forma muito particular. Mas torna-se mais visível quando estimulada pelo trabalho, pelo esforço que fazemos em entrar no universo para o qual estamos a ilustrar. É preciso entranhar esse envolvente ao ponto de começarmos a falar a mesma linguagem e nos deixarmos contaminar. No meu processo de trabalho há uma espécie de sinergia entre o que o texto me dá e a forma como lhe respondo. Essa resposta é dada segundo o meu ponto de vista, que surge, exatamente, da minha imaginação, da forma particular como penso e descodifico as coisas. É nessa minha conversa com o texto que vou ao mais fundo de mim encontrar as respostas. O segredo está em não reprimir essa lufada de imaginação e resistirmos às vias mais fáceis, que são as ideias pré-concebidas. Há ainda uma grande vantagem: neste imaginário, quem manda sou eu. Uma perna pode ser maior do que a outra, os braços podem arrastar pelo chão, um olho pode ser quadrado e a cabeça ter o tamanho de um alfinete. Por que não? Quem proíbe?

Não posso deixar de referir uma das minhas autoras favoritas, a Sara Fanelli, mestre nesta arte de transformar o mundo, por imagens, num imaginário singular.

 


ilustração originalmente concebida para a série de animação “As máquinas de Maria” (Pedro e o Gato, 2008)

 

Marta Madureira: Este projeto, “As máquinas de Maria” é um objeto de animação que começou por ser uma ilustração. Depois, evoluiu para uma curta metragem de animação e posteriormente, no seu formato atual, é uma série de animação infantil, para televisão, com 26 episódios (um projeto conjunto com o meu bom amigo e colega Pedro Mota Teixeira). Esta série de animação conta o dia a dia da Maria, uma menina que tem como passatempo preferido inventar máquinas para resolver os problemas mais simples que a rodeiam. Em torno deste conceito, fui criando um imaginário correspondente, alicerçado nas características psicológicas da personagem principal e na sua obsessão pelas máquinas. A própria Maria é o reflexo físico dos seus traços psicológicos: os olhos são roldanas e as articulações do corpo são feitas com parafusos. Esta estética estende-se ao resto das personagens, como é o caso do Tex, o cão, onde as patas são substituídas por rodinhas. Ele próprio pode ser visto como uma das invenções da Maria. É a partir deste imaginário que surgem a “máquina de afastar nuvens”, a “máquina de envelhecer sapatos”, a “máquina centopeia”, a “máquina de fazer crescer” e “a máquina de viajar sem sair do sítio”, entre outras.

Este projeto tem ainda a característica de os textos (argumentos) terem sido escritos por mim, o que faz com que muitas vezes a imagem e o texto surjam em simultâneo. Creio que é um dos meus maiores exercícios de imaginação, talvez porque seja o que dura há mais tempo (é um projeto que existe desde 2008) e essa continuidade permite-me uma intimidade reforçada e sedimentada com o objeto. Cada vez que tenho que trabalhar em mais um episódio, bato à porta:

– Ora se faz favor, menina Maria, vou entrar!

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Filed under Ilustração

“Todos fazemos tudo”, de Madalena Matoso, anunciado para setembro

 

A matriz desenhada na miraculosa depuração formal e na profunda inteligência cromática que – entre uma miríade de outros atributos – se gera e renova em cada gesto do olhar criativo de Madalena Matoso terá em setembro mais uma feliz evidência. Agora prometido no blogue do seu Planeta Tangerina, o caderno de ilustrações “Todos fazemos tudo” – com origem na suíça Éditions Notari, que lhe permitiu uma primeira edição há poucos meses – revelará na rentrée um generoso espaço para este plural e democrático catálogo de personagens fisicamente questionados e desdobrados e transfigurados a cada (meia) página virada. Um ágil existencialismo semiótico cúmplice da beleza desarmante que aqui se anuncia e projeta:

 

 

Bruno Bènard-Guedes

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“Clareana”, de Joyce

Canções sobre crianças são, como diz o povo, “mais do que as mães”. Mas poucas crianças terão sido diretamente abençoadas com tão profunda beleza como a cantada pela imaculada voz autoral da mãe Joyce. “Clareana”, escrita para as suas  duas primeiras filhas (Clara – que viria a crescer para se transformar na deslumbrante cantora Clara Moreno – e Ana – ou seja, a também cantora Ana Martins), é uma das canções perfeitas dessa obra-prima da música popular brasileira que é o álbum “Feminina” (Odeon, 1980). Para encantar e embalar “quem mais chegar”…

 

 

Moreno Fieschi

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“O livro do buraco”, de Peter Newell

Nasceu no Illinois, nos Estados Unidos, numa terreola que nem nome tinha (mas que era conhecida entre os locais como Gungiwam), e na única habitação a que se podia chamar verdadeiramente “casa” (as restantes eram cabanas de toros), mas o que é certo é que o talento do jovem Peter Sheaf Hersey Newell (1862-1924) cedo começou a dar nas vistas. Desenhava em tudo o que era sítio, da porta do celeiro às rodas das carroças, das paredes e tecidos que conseguia arranjar ao quadro negro da escola. Na verdade, um dos episódios que terá marcado a sua primeira e pouco auspiciosa passagem de apenas um semestre pela Art Students League, em Nova Iorque, foi a façanha de ter desenhado um gato morto na bandeja que um criado, contratado como modelo pela escola, trazia na mão e que utilizava para posar para a turma de desenho.

 

 

No início do século XIX, a maior parte dos livros destinados a crianças assentava numa base moralista, com mensagens didáticas e exemplares, sobretudo graças ao impacto de grupos religiosos. Em Inglaterra, por exemplo, a sociedade evangélica Religious Tract Society, fundada em 1799, foi uma das primeiras a publicar contos religiosos, seguindo-se histórias de aventuras e, finalmente, em 1879, a revista semanal para crianças “The boys’ own paper”. Mas a partir de 1820/30, a situação começa gradualmente a mudar. Os contos de fadas são editados nas versões de Perrault, dos irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen, e surgem as obras de Lewis Carroll e Edward Lear, de Trackeray, Charles Kingsley, Jean Ingelow e George MacDonald. Em meados de 1880, proliferam as revistas para crianças e jovens, e assiste-se ao florescimento de um mercado em que a ilustração começa a ganhar algum relevo. Produzem-se cada vez mais livros, mais baratos, e com meios de impressão mais sofisticados. Surgem, por exemplo, os “penny dreadful” e os “toy-books”, pequenos livros ilustrados a “six penny” o exemplar, criados por artistas como Walter Crane, Randolph Caldecott e Edmund Evans. Ou seja, Newell encontra-se precisamente no centro desta revolução, assistindo ao nascimento de diversas revistas juvenis, revistas de ficção, cheias de histórias de ação e aventura, episódios caseiros ou crónicas escolares. As crianças e animais são protagonistas de muitas destas aventuras, em que o quotidiano se mistura com um universo paralelo, onírico até. Uma das suas obras mais conhecidas é a banda desenhada “The naps of Polly Sleepyhead”, publicada em diversos jornais entre fevereiro de 1906 e setembro de 1907.

Newell ilustrou Mark Twain, Lewis Carroll e Stephen Crane. Fez parte de uma geração de nomes como A. B. Frost, E. W. Kemble, Maxfield Parrish, Howard Pyle ou Charles Dana Gibson. Os seus desenhos ficaram na história da ilustração e na história de publicações periódicas como a Harper’s Bazar ou a Scribner’s Magazine, e ainda em revistas para crianças, como a Harper’s Young People (mais tarde Harper’s Round Table) ou a St. Nicholas.

Peter Newell entrou como aprendiz, aos 16 anos, numa fábrica de cigarros, até conseguir trabalho como desenhador de retratos a partir de fotografias. Mas como o que queria mesmo era ser cartoonista e ilustrador decidiu enviar, corajosamente, alguns dos seus esboços para a Harper’s Bazar, uma das revistas mais populares na época. Em troca, recebeu um cheque simbólico, acompanhado de uma pequena nota: “Não revela qualquer talento”. Terá sido o suficiente para o fazer decidir partir à aventura para Nova Iorque, em 1882, de onde continuou a enviar desenhos para revistas e jornais: “Quando comecei a desenhar para revistas, havia muito poucas que tinham ilustração. Havia a Harper’s, Scribner’s e a Godey’s – e era tudo. (…) Quando comecei, cultivava não só o meu desenho, mas também a minha imaginação. Tentei desenvolver a capacidade para conceber situações humorísticas… Se um artista tivesse uma ideia que agradasse ao editor, receberia muito mais atenção do que um artista que não tivesse mais do que um bom desenho.”

 

 

De facto, a reputação inicial de Newell deveu-se sobretudo aos seus desenhos cómicos e aos episódios da vida rural, muitas vezes envolvendo personagens afro-americanas, não escapando por isso a acusações racistas e ao epíteto de “sulista”. Aliás, não é por acaso que, em algumas edições americanas, as páginas 36 e 37 de “O livro do buraco”, publicado em 1908, são suprimidas, precisamente pelas suas interpretações politicamente incorretas: o estereótipo de uma “mammy”, uma mulher negra, de avental, brinco de ouro e lenço na cabeça, dirigindo-se a três crianças negras atónitas, apontando, zangada, para o buraco que a bala fez numa grande melancia na prateleira da cozinha, ameaçando com uma “surra” o culpado (“I’d spank de chile dat done dat trick, / Ef I could learn his name”). Repare-se na transcrição que Newell faz (e que Mark Twain teria adorado!) da oralidade típica, não só da “mammy”, mas de várias outras personagens:
– o vendedor de balões da Rússia: “Balloons! Balloons! Who vants to buy?”;
– o líder da banda de música alemã: “You shtart too soon, my friendt— / You make a better plumber!”;
– o velhote turco: “Who put dot bombshell in my pipe? (…) “If I could git my hands on him, / Dere would be vone less joker!”;
– o cavalheiro ofendido: “What do you mean, sir (…) / By knocking off my high silk hat?”

Os próprios nomes que Newell escolhe para as personagens acentuam a vertente cómica, tanto do ponto de vista fonético, como pelas referências sociais tipificadas, o que é algo que se perde quase inteiramente na tradução, por mais bem conseguida que esteja do ponto de vista rítmico. O esforço de criar referências nacionais equivalentes para este universo tão especificamente anglo-saxónico pode encontrar-se na adoção do diminutivo Nando, na exclamação “Tou salvada!”, proferida pela senhora Silverman, na utilização da expressão idiomática “dando às de vila diogo”, na designação de “zé-pereira” para o músico da banda, ou no nome “Pedrês” para o cão.

Na linha das histórias de prevenção e infortúnio, a componente exemplar de alerta quanto aos perigos decorrentes da manipulação de armas de fogo acaba por ser subvertida, graças à utilização da sequência repetitiva de justaposição de acidentes, sustos e surpresas que o perigoso descuido do pequeno Tomás Potts provoca.

Se já conhecíamos “O livro inclinado” (Orfeu Mini, 2008), que é mesmo inclinado, e temos agora “O livro do buraco”, que tem mesmo um buraco, resta-nos aguardar a publicação local de outros livros desta série criada por Peter Newell: “Topsys and Turvys” (1 e 2) e “The rocket book”.

 

livro “O livro do buraco”, de Peter Newell
Libri Impressi / Gradiva, 2011
[a partir dos 7 anos]

 

Paula Pina

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 4)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infanto-juvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: Tem segredos ou técnicas especiais no seu método de trabalho que nos possam ajudar a desenhar melhor?

Marta Madureira: Cada um tem uma forma particular de desenhar. O que torna esse desenho especial é o facto de explorarmos, dentro do nosso registo, uma solução original. Por exemplo, há muita gente a trabalhar com papel, mas ninguém a desenhar com papel como a Yulia Brodskaya. Embora utilize um material comum, percebe-se uma expressão pessoal conseguida pelo conhecimento das caraterísticas físicas do papel, a fim de tirar o máximo partido do mesmo. E o resultado final é um trabalho autoral. Quer isto dizer que, na minha opinião, o desenho passa pela destreza técnica mas também, em grande parte, pela forma como cada qual explora o material. Até porque, no trabalho de ilustração, tão importante como um desenho bem executado são a composição, as formas, os pesos visuais, a ideia, etc. Existem desenhos muito bons tecnicamente que não são boas ilustrações. E há excelentes ilustrações que têm abordagens ao desenho menos convencionais, como é o caso do trabalho de Christian Voltz, que desenha com objectos e arame. Mas o contrário também acontece, ilustrações com abordagens mais tradicionais ao desenho, como são os trabalhos da Lisbeth Zwerger e da Joanna Concejo (em duas gerações distintas), onde a destreza técnica e o uso de figuras mais realistas em nada direciona para uma ilustração literal. Bem pelo contrário, são histórias muito bem contadas, tal é a destreza das autoras para a construção de imagens simbólicas.

Independentemente do tipo de desenho, importa adequar a técnica ao conteúdo a ilustrar. A escolha do material deve ter em conta o tema. Quando assim acontece, o resultado sai fortalecido. Como é o caso, por exemplo, da ilustração “Boxer” de Herr Mueller, onde o uso do material amassado sugere uma sensação mais real.

Mas respondendo de forma mais objetiva à pergunta, no meu caso em concreto, não tenho segredos bem guardados. O desenho vem da experiência e da perícia com que se manipulam os materiais. No primeiro post referi que por desenho entendo tudo aquilo que é passível de registo. Dentro da minha linguagem plástica, que passa em grande parte pelo desenho de tesoura, tento sempre encontrar formas diferentes de desenhar, numa procura contínua de materiais.

 

ilustração originalmente publicada no livro “Matilde Rosa Araújo – Um olhar de menina” (Trinta Por Uma Linha, 2010)

 

Marta Madureira: Esta ilustração pertence ao livro “Matilde Rosa Araújo – Um olhar de menina”. Foi um trabalho que me deu prazer em muitos sentidos. Porque me juntou pela segunda vez (e assim fortaleceu a minha relação) com a autora do texto, a Adélia Carvalho. Porque é uma homenagem sentida à Matilde Rosa Araújo, escritora da minha infância, que graças a este livro reencontrei, na pessoa e nas personagens que voltei a ler. E porque, enquanto trabalho de ilustração, me permitiu experimentar sem limites. Uma experimentação proporcional às sensações que me chegavam do texto. Tentem lá encontrar: este livro é feito de tangerinas da terra dos meus avós, cascas e sumo de laranja; tem flores frescas e flores secas; tem café em forma de terra; tem tinta nos dedos; tem água, azeite e vinagre numa nuvem e numa onda; e tem arroz no meio das árvores. Ainda hoje lhes sinto o cheiro.

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“Kinderszenen”, de Robert Schumann

Nasceu no dia 8 de julho. Compositor, amante das grandes formas e miniaturista. Pianista e leitor ávido, apaixonado, solitário. A reputação de Robert Schumann (1810-1856) como pioneiro na música de câmara e a sua profundíssima ligação à literatura é visível, por exemplo, nos seus lieder escritos a partir de poemas de Heine.

Jorge de Sena, na “Arte da música” (1968), escreveu:

 
Ouvindo poemas de Heine como “lieder” de Schuman

Nunca talvez tão grande poesia encontrou sua grande música
assim. Outros poemas grandes foram musicados para o canto,
e de outros não tão grandes se fizeram canções magníficas.
Mas raro assim aconteceu que a palavra fosse dita em música
como a pensada música que nela havia para lá dos sons da linguagem,
na amargura do sentido que do riso ganha uma doçura triste
que é delicada reticência em que as palavras soam
como a própria vida quando se desfaz em perdido sonho.
Não mais refinadamente se gritaram as maiores das mágoas,
sem nenhum grito, sem olhos pelo espaço, e o pranto
feito o som de um piano que acompanha a voz
impetuosa ou pensativa, mas que não chora
e apenas disserta musicalmente sobre as dores do poeta.
São pequeninos dramas líricos. Mas pouco drama em música
jamais teve esta concentrada solidão, tão severa e nua,
sem cenário e sem orquestra, e sem personagens sequer:
a vida inteira numa voz e num piano, que
são a poesia funda que não disse o homem
que brincou perseguido, exilado e traído,
com tudo o que perdia mas na voz ganhava.

27/4/1964

 
São treze e pequeninas as “cenas infantis” – “Kinderszenen”, op.15 (1838) – que Robert Schumann compôs. Ao contrário de outras peças para piano, como a coleção “Album für die jugend” (ou seja, “álbum para a juventude”), op. 68, não foram pensadas para serem tocadas por crianças. Na realidade, o próprio compositor terá afirmado que os títulos sugestivos que atribuiu posteriormente a cada uma das peças, ou, se quisermos, andamentos ou secções, deveriam funcionar sobretudo como indicações interpretativas, já que seria sua intenção expressar musicalmente “memórias de infância”.

Recordemos também Alban Berg e a sua análise extraordinária de “Träumerei”, uma das mais famosas “Kinderszenen”, com os seus fraseados assimétricos e surpresas harmónicas. E o “Träumerei” (“sonho”) de Vladimir Horowitz:

Simples? Básico? Infantil?

Veja-se o opus 1, “Vom fremden ländern und menschen” (“sobre terras e povos distantes”), por exemplo.

 

 

A peça, em forma ABA, é construída com base em duas frases contrastantes. Na primeira frase, nos dois primeiros compassos, a voz superior canta, em legato, o motivo principal. As tercinas, no alto, criam um contraste rítmico interessante. Uma sétima diminuta secundária é utilizada para preparar o acorde da dominante no segundo compasso. Os dois primeiros compassos são depois repetidos nos compassos 3 e 4. Uma variação dos compassos iniciais, seguida de mais dois compassos, terminam a frase com uma cadência imperfeita.

A segunda frase tem apenas seis compassos. O motivo principal passa agora para a voz grave. Um ciclo de quintas conduz-nos a mi menor nos compassos 9 a 12, mas não se mantém aí, já que a dominante é resolvida num acorde de sol maior no compasso 12. E voltamos seguidamente à secção A.

Enganadoramente simples, certo? Por outro lado, do ponto de vista performativo, só uma abordagem muito sistemática e estruturada camada a camada, voz a voz, desmontando e voltando a montar, permitirá ao pianista dominar a peça. É imprescindível fazer um mapeamento cuidadoso das vozes, isolando a melodia, no soprano da mão direita, associando-a à voz cantada em legato; depois, a atenção que é necessário dar à dedilhação, de modo a assegurar a fluidez entre soprano e alto, evitando força excessiva nos polegares e, ainda, o uso discreto do pedal, deitam definitivamente por terra qualquer tentativa de catalogação rápida destas peças como “infantis”. Ser “infantil” não é ser “fácil”, não é ser “simples”. Que o digam as crianças. Schumann já o fez, compondo “grandes” estas “pequenas” “cenas”.

 

Paula Pina

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Xixi no banho

Foi há pouco mais de dois anos que o universo da publicidade realmente responsável e desafiante reservou alguns momentos de imenso respeito a uma campanha a todos os níveis peculiar e memorável: a apologia do ato de urinar durante o duche como ajuda decisiva para a salvação do património biológico de valor incalculável que ainda sobrevive da Mata Atlântica, aquela que foi a segunda mais relevante floresta tropical do Brasil.

Um notável trabalho empreendido pela fundação S.O.S. Mata Atlântica (organização não-governamental com 25 anos de atividade) e desenvolvido criativamente pela agência Nazca Saatchi & Saatchi, de São Paulo, que soube aliar uma tão inteligente solução (desde sempre praticada por uma percentagem imensa de crianças…) a um não menos lúcido plano artístico, particularmente brilhante a nível da ilustração e do design. E, acima de tudo, provou mais uma vez que as crianças são capazes de uma lógica em constante consonância com o que de melhor ainda existe na nossa natureza humana nos debates que – inadvertidamente ou não – lançam…

Para o futuro, ficou um site e um video com uma lição para ver e aplicar como contínua garantia da eliminação dos preconceitos que ainda não foram pelo ralo abaixo.

 

www.xixinobanho.org.br

 

 

 

 

Moreno Fieschi

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O brio copista de Mayer Hawthorne ao vivo em Cascais

Depois da dionisíaca celebração funk de Sharon Jones & The Dap-Kings (aconteceu na passada 2ª feira e foi provavelmente o mais sublime concerto a que Portugal pode assistir neste ano) e da serena sabedoria jazzística de Madeleine Peyroux (ontem), viveremos hoje outra imperdível data da extraordinariamente feliz agenda do festival Cascais CoolJazzFest deste ano, cortesia desse criador sem par contemporâneo que é Mayer Hawthorne. O Parque Marechal Carmona, paradigmático privilégio ajardinado da cidade de Cascais (exemplo que devia ser seguido por muitas outras cidades portuguesas…) e residência de um dos mais completos playgrounds infantis da grande Lisboa, será iluminado, a partir das 10 horas desta noite, pela soul com pedigree funk, hip hop, jazz e pop do autor do magnífico “A strange arrangement” (Stones Throw, 2009). Tão esclarecidamente assética quanto acreditamos ser possível, a obra de Mayer Hawthorne é um dos mais profundamente tranquilos bálsamos que a música popular de anos recentes conheceu, capaz de operar decisivos milagres nas tensões quotidianas de qualquer pessoa com uma centelha de exigência artística que seja, e hipótese particularmente feliz de introdução à galáxia pop “adulta” para crianças a partir dos três anos. Imerso em referências clássicas da idade de ouro da música negra, Mayer Hawthorne é um copista com brio inquestionável e um talento colossal aplicado em canções que se elevam instantaneamente ao nível de uma fatia assinalável das suas mais dignas fontes de inspiração. Meia dúzia de provas disso mesmo, com o humor e a inteligência acrescida destes extraordinários videoclips:

 

 

 

“When I said goodbye”:

“Your easy lovin’ ain’t pleasin’ nothin'”:

“One track mind”:

“Just ain’t gonna work out”:

“I left my heart in San Francisco”:

“I wish it would rain”:

 

 

 

7 julho, 10 pm
Mayer Hawthorne
Cascais CoolJazzFest
Parque Marechal Carmona, Cascais
[a partir dos 3 anos; entrada gratuita dos 3 aos 5 anos]

 

 

 

Moreno Fieschi

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“Na noite escura”, de Bruno Munari

“Um momento, por favor, o telefone está a tocar.”

É assim que termina o texto de apresentação que Bruno Munari escreveu em 1956, para a primeira edição do livro “Na noite escura”, e que figura no final misterioso quadrado/retângulo amarelo. Quem já passou pela experiência de ser entrevistado por uma criança, reconhecerá nesta nota biográfica as respostas às perguntas inesperadas, tão simples e tão óbvias.

“Quando e onde nasceste? Em Milão, Itália, em 1907.

Quanto medes e quanto pesas? Meço 1,60 metros e peso pouco mais de 50 quilos.

Tens irmãos? O meu irmão Giordano, que se casou com a Ester, que é irmã da minha mulher.

Tens filhos? Tenho um filho, o Alberto, que vive em Genebra e me telefona bastantes vezes dando notícias.

(…)”

De súbito também, deixamos as respostas às perguntas da criança e entramos diretamente na rotina de um dia com Munari: estamos com ele no ateliê ou na varanda, a sua mulher põe um bom disco e conversa um pouco, na sala ao lado o seu irmão Giordano telefona à mulher, o porteiro entra com um telegrama (ainda existem?),…

 

 

Eis a autobiografia artística do arquiteto, do designer, do escritor, do ilustrador, do construtor de fontes e mobiles de plástico, do professor, do investigador, do teórico, do pioneiro, do Prémio Hans Christian Andersen em 1974. O “Peter Pan do design italiano”, como lhe chamou Pière Restany, foi mais do que um menino que não queria crescer: graças a ele e aos seus projetos gráficos, aos seus “livros ilegíveis”, a ilustração tornou-se algo mais do que desenhos bonitinhos que acompanham um texto.

Arrepiem-se os que estão convencidos de que as crianças só gostam de cores vivas e brilhantes e de historietas de princesas ou dragões. “Na noite escura” há silhuetas a azul escuro em fundo negro e bocadinhos de texto, que surgem e desaparecem. “Na noite escura” há folhas furadas e esburacadas e técnicas de impressão diversas. “Na noite escura” há texturas, materiais (cartolina, papel vegetal, papel pardo, papel de lustro…), desenhos, e vozes (ora em narrador, distante, ora descrevendo, ora interrogando, ora em balões de banda desenhada) acompanhando um percurso (por diferentes espaços, ambientes e tempos) de descoberta multisensorial. Incoerência? Ilegibilidade? Não. Variedade, desafio. Sim, há um gato (mais até) de olhar “pirilampiscado” que busca. Um pirilampo (muitos) e a noite que se torna dia com caracóis, gafanhotos, escaravelhos, formigas, um pássaro morto. Manual de estudo de insectos? Aula sobre pré-história e espeleologia? Quem conversa com quem? Quem descobre o quê? Formiga, gato? Gruta ou buraco?
(…)

Um momento, por favor, o telefone está a tocar (seria tão bom que fosse Bruno Munari dizendo “pronto!…” do outro lado do fio).

Munari (1907-1998) mudou a história da ilustração e muda-nos ainda, sempre que nos sentamos e nos preparamos para redescobrir o que há “Na noite escura”.

 

livro “Na noite escura”, de Bruno Munari
Bruaá, 2011
[a partir dos 8 anos]

 

Paula Pina

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 3)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infanto-juvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível (apesar das descaradas imitações que pontualmente vão surgindo na área…), Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: Acha que tem estilo? Ou acha que tem um estilo próprio? Acha que é “especial”?

Marta Madureira: Estilo próprio, acho que sim. Não de um forma racional, mas intrínseca ao meu gesto e à minha forma de pensar. Ainda assim tento contrariar a monotonia que o uso de um só estilo pode criar. Até porque a ilustração não funciona por receita. Cada trabalho pede formas específicas e abordagens plásticas diferentes, adequadas ao ambiente sugerido pelo texto. E, dentro deste raciocínio, uma ilustração será tão mais distinta de outra quanto mais diferente for o texto que a inicia. Mas fugir à submissão de um estilo nem sempre é fácil. Quando, por exemplo, faço dois trabalhos muito seguidos ou até mesmo em simultâneo, há uma tendência para contaminar os dois com uma mesma estética. Assim, sempre que possível, evito trabalhar em mais do que um projeto ao mesmo tempo. E, sempre que possível, tento respeitar um espaço de tempo intermédio entre dois trabalhos, que me garanta a distância necessária para o desprendimento sobre o que já foi feito. Ainda assim, acho – tenho a certeza – que há uma marca gráfica à qual não se consegue fugir. E que em parte é o que me define enquanto ilustradora. Acho até natural que assim aconteça. Desde que o estilo de cada um não se torne completamente soberano.

Se sou especial, não, não sou. Sou uma pessoa com muita sorte por estar rodeada de pessoas especiais. São essas pessoas especiais que me ajudam a consolidar o que sou emocionalmente e, como tal, também profissionalmente. Tenho a sorte de estar rodeada das pessoas que sempre quis. E tenho também a sorte de ter como amigos excelentes profissionais, maioritariamente da mesma área, em quem confio, com quem conto e partilho cada trabalho antes de o tornar público. Na maior parte das vezes, o trabalho final é o resultado das conversas e conselhos que tenho com essas pessoas especiais.

 

ilustração originalmente publicada no livro “As letras de números vestidas” (Trampolim, 2010)

 

Marta Madureira: Um dos grandes proveitos que tiro do trabalho de ilustração é poder fazer declarações de amor públicas às pessoas que me são especiais. São uma espécie de mensagens subliminares, não explícitas para a maioria dos leitores, mas subentendidas por alguns. A tentativa de comunicar por imagens por si só já é um desafio. Mas torna-se ainda mais apetecível quando entramos nesta espécie de jogo que passa pela troca de cumplicidade entre o ilustrador e um recetor conhecido. Este tipo de imagens, que comunicam com qualquer um mas que chegam ainda mais longe às pessoas emocionalmente envolvidas, trazem uma leitura dicotómica. São uma espécie de “piscar o olho” às pessoas mais próximas. Esta ilustração, retirada do livro “As letras de números vestidas”, de 2010, a partir do texto de João Pedro Mésseder, é um “piscar o olho” ao “N”. Para reforçar esta dupla mensagem, usei elementos fisionómicos reais: o nariz do lado esquerdo é meu e do lado direito é do “N”. Para muitos será mais uma ilustração na continuidade do livro. Para os mais próximos, é um “piscar de olho”.

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Sophia e Wislawa

 

Szymborska, uma. Andresen, outra. Wislawa nasceu polaca, neste 2 de julho, em 1923. Sophia de Mello Breyner morreu portuguesa, neste 2 de julho, em 2004. Poetisas. Wislawa Szymborska recebe o Prémio Nobel da Literatura em 1996. Sophia nunca o recebeu. Recordando Sophia, celebramo-la com Wislawa (mesmo não sabendo polaco, mesmo transportando as traduções, a tal água escorrendo por entre os dedos das nossas mãos em concha…). Gostamos de poesia. Desta. Inteira, aos pedacinhos, às vezes seja como for.

 

 
Alguns gostam de poesia

 

Alguns —

quer dizer que nem todos.

Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.

Não contando as escolas onde se tem que,

e quanto a poetas,

dessas pessoas, em mil, haverá duas.

 

Gostam —

mas gosta-se também de sopa de esparguete,

dos galanteios e da cor azul,

do velho cachecol,

brindar à nossa gente,

fazer festas ao cão.

 

De poesia —

mas que é isso a poesia?

Muitas e vacilantes respostas

já foram dadas à questão.

Por mim não sei e insisto que não sei

e esta insistência é corrimão que me salva.

 

Wislawa Szymborska, in “Paisagem com grão de areia” (tradução de Júlio Sousa Gomes, Relógio d’Água, 1996)

 

 

 

Descoberta

 

Eu acredito na recusa de tomar parte.

Eu acredito na carreira arruinada.

Eu acredito nos anos de trabalho desperdiçados.

Eu acredito no segredo levado para o túmulo.

Estas palavras curam-me para além de todas as regras

Sem procurar o apoio de exemplos concretos.

A minha fé é forte, cega, e sem qualquer fundamento.

“Eu não tenho porta”, diz a pedra.

 

Wislawa Szymborska (nossa tradução do inglês)

 

 

 

Paula Pina

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